A loucura em horário nobre

Estadão

20 Fevereiro 2009 | 15h00

“Aqui louco varrido não vai para debaixo do tapete”. A novela das oito havia começado e, de relance, enxerguei a frase escrita em uma plaquinha na porta do “consultório” do personagem de Stênio Garcia, o psiquiatra “Doutor Castanho”. Puxa, a reforma psiquiátrica em horário nobre? Quis saber mais.

Glória Perez (a autora de Caminhos das Índias) é hábil no merchandising social. Assim, trouxe para a novela a esquizofrenia, e os problemas dos doentes e das famílias de pessoas que convivem com a doença fora dos hospícios. Vinte anos depois do início do movimento pela reforma no País, chegou a sua casa o debate sobre substituição das internações em grandes hospitais psiquiátricos pelo atendimento –e acolhimento – dos doentes em Centros de Atenção Psicossocial, hospitais dias, e pela família. Para integrantes da luta contra os manicômios, mais um passo contra os estigma que atormenta as pessoas que vivem com transtornos mentais.

O Núcleo de Saúde conversou com a psiquiatra Patrícia Schmid, de 38 anos, a consultora oficial de Glória para o “núcleo” de personagens com esquizofrenia. Ela é vice-diretora do Instituto Municipal Nise da Silveira, no Rio de Janeiro, que leva o nome da psiquiatra brasileira que revolucionou ao utilizar a arte como método terapêutico. Veja trechos da entrevista, ilustrada com uma obra de Carlos Pertuis, da mostra virtual do Museu de Imagens do Inconsciente, organizado por Nise.

Como este tema foi parar em uma novela?

Patrícia Schimid– A Glória é prima de uma colega nossa, a Sônia Ferrante, organizadora do evento Loucos por Música, e lá ela conheceu o grupo de música Harmonia Enlouquece. A partir daí decidiu que a campanha social da novela seria a favor dessas pessoas (o Harmonia Enlouquece é um grupo musical que nasceu em um centro psiquiátrico, muito festejado pela crítica. Conheça o grupo).

E como você se tornou consultora?

Patrícia – O meu primeiro contato foi com a pesquisadora da novela, Giovana Manfredi. Como vice-diretora do instituto, começamos a conversar e eu me encantei com a proposta, pois um dos temas que mais estudo é o estigma contra pessoas que vivem com doença mental. Achei a ideia fenomenal e iniciei um trabalho totalmente voluntário. A equipe da novela tem visitado diferentes institutos de saúde mental e CAPs (Centros de Atenção Psicossocial, que devem atender o doente na comunidade). Além disto, durante a preparação, levamos colegas e pacientes ao Projac (local de gravação da novela).

E qual foi o impacto até agora?

Um dos pacientes, aquele que apareceu na novela pintando um quadro, acabou de entrar na minha sala para contar. Ele é realmente um artista e foi reconhecido e festejado até no ponto de ônibus. Isto tem um efeito na autoestima. Já no salão de beleza que eu frequento, a manicure comentou: “não pensei que louco poderia trabalhar”. A novela faz uma construção muito sutil sobre a realidade da doença mental. Por exemplo, coloca a diferença entre o psicótico (os personagens Ademir, de Sidney Santiago, e Tarso, de Bruno Gagliasso, que têm esquizofrenia) e o psicopata. Sim, há um psicopata na novela, que é a Ivone (Letícia Sabatella). Há ainda um “pitbull” (um personagem que parte para a pancadaria por qualquer coisa). O que a novela mostra é que há vários tipos de violência e que o que tratável é a do Ademir e do Tarso, a esquizofrenia. O que ele faz é porque está doente.

No ano passado houve um intenso debate no meio médico sobre os efeitos da reforma depois de reportagem que apontou suposto aumento das mortes de doentes mentais após o País adotar uma política de redução de leitos psiquiátricos.


Patrícia
– O que ocorre é que começamos a tratar esses doentes . É como a dengue, o problema não existia até começarmos a notificar. Começamos a notificar porque os doentes saíram das instituições. Antes eles eram um zero, em tudo, não existiam.

Qual o impacto da novela para a luta contra os manicômios?

Há um artigo recente no site do Banco Interamericano de Desenvolvimento que mostra o impacto das novelas brasileiras na taxa de divórcios. Eu vou fazer meu doutorado sobre o impacto da novela sobre o estigma em relação as pessoas com doença mental. Não é qualquer experiência o que está acontecendo. Todos os estudos sobre estigma mostram que ele é propagado principalmente pelos locadores de imóveis, que se recusam a alugar para pessoas com doenças mentais, policiais, pela atribuição do comportamento violento, e pela mídia. As novelas no Brasil são vistas por 50 milhões de pessoas, vão ao interiorzão, até pessoas que não têm noção de que é possível conviver com a doença mental. Todo mundo tem medo de ficar louco, por isto as pessoas têm medo de quem tem doença mental. Mas quando o personagem do Bruno Gagliasso, com aqueles olhos azuis, surtar, aí vai bombar. A novela está mostrando que a loucura traz muito sofrimento. E as pessoas saberem que o louco sofre é muito importante.