Ameaça à vida

Estadão

05 Março 2009 | 18h49

Quem se preocupou com a saúde, a qualidade de vida e o futuro da menina de 9 anos estuprada pelo padrasto em Alagoinha (PE) e grávida de gêmeos? Sua mãe, que concordou com a interrupção da gravidez? Os médicos do Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros, em Recife, que cumpriram o dever profissional e realizaram o procedimento?

A garotinha de pouco mais de 30 Kg corria risco de morte se mantivesse a gravidez. É assegurado pela legislação brasileira o direto a interromper a gestação em casos de estupro ou ameaça à vida da mãe.

O Imip (Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira), também em Recife, ligado à Igreja Católica, decidiu não fazer a interrupção. Temia a reação da Igreja e o pai da menina, que seria contra o procedimento. Além disto, médicos da instituição são contra. Um deles disse ao Núcleo de Saúde que jamais realizaria o procedimento, porque não gostaria de ceifar a vida de dois inocentes. Além disto, lembrou que o fundador do instituto, professor Fernando Figueira, só nasceu porque sua mãe, com tuberculose e sob risco de morte, resistiu ao aborto. É direito do médico se negar a realizar procedimentos com os quais não concorda.

OK, posições respeitadas.

Mas ontem, quando se avizinhava o início, talvez, de uma vida nova para a menina, o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, condenou todos os que auxiliaram legalmente a interrupção da gravidez, avisando que estão automaticamente excomungados, infernizando a família que já não tinha paz. As crianças já não existem, a garota ainda está se recuperando da selvageria que sofreu, nesta tarde realizava exames para verificar se contraiu uma Doença Sexualmente Transmissível.

Você vê algum propósito nesta discussão iniciada pelo bispo? Ela ajuda a saúde e a qualidade de vida da menina e de outras garotas vítimas da pedofilia? Como será se tiverem de recorrer à interrupção da gravidez para dar continuidade ás suas vidas?