Bota camisinha

Estadão

24 Fevereiro 2009 | 16h08

Você deve ter visto várias por aí no Carnaval, nas propagandas na TV, circulando nos sambódromos, bailes e em outros locais com grande fluxo de foliões. Ah, sim, algumas foram até mesmo distribuídas pelo presidente Lula, que fez campanha contra a Aids em visita à Sapucaí anteontem.

No entanto, não é de hoje que as entidades que defendem os direitos das pessoas que vivem com o HIV alertam os governos que a camisinha não deveria ser estrela só de ocasiões especiais, como o Carnaval e o Dia Mundial de Luta contra doença, celebrado em todo o 1º de dezembro. Recente nota do Fórum de ONGs Aids de São Paulo, por exemplo, lembrou que “fora estes períodos, a maior parte das ações de prevenção são feitas por organizações não governamentais” -ou seja, os preservativos do Estado continuam a circular, mas em canais mais restritos e sem campanhas publicitárias de fôlego. Enfim, a chance de se lembrar da importância da proteção é muito menor na maior parte do ano.

A epidemia de Aids no Brasil estabilizou-se em patamares elevados, registra ainda cerca de 34 mil novos casos por ano, e é por isto que não dá tirar o pé do acelerador nas campanhas de prevenção.
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Outra preocupação é o controle sobre o que é distribuído. Nos últimos anos aumentaram as compras públicas de camisinha, que chegam a cerca de 1 bilhão de preservativos por ano, mas, como informou o Estadão na véspera do Carnaval, o sistema público ainda não sabe se elas estão chegando a quem mais precisa, até mesmo aos foliões do Carnaval. Tanto é que este é um dos motivos para o Programa Nacional de Aids preparar para março um projeto de expansão do uso do preservativo que prevê melhor acompanhamento da distribuição.

Mais um desafio é o mercado privado, que de 2007 para 2008 teve uma pequena queda das vendas, de 3%, com 263 milhões de unidades vendidas no último ano, segundo dados da empresa de pesquisas de mercado Nielsen.
Pesquisa do próprio Ministério da Saúde mostram que os consumidores gostariam de encontrar camisinhas não só em supermercados e farmácias, lembra Marta Mc Britton, da ONG Instituto Barong, que trabalha com a venda subsidiada de preservativos em locais alternativos, como bares e locadoras.
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Desde 2002 uma lei federal garante que os preservativos possam ser vendidos em qualquer estabelecimento comercial. Por que será que tantos comerciantes resistem? O próprio Barong só convenceu 300 pontos do comércio popular da zona sul de São Paulo a vender camisinhas depois de uma aula de prevenção na associação comercial do populoso bairro Jardim São Luís, onde três camisinhas diferenciadas (aquelas com sabores e cores, por exemplo) são venidas a R$ 0,99 em alguns pontos. O sucesso foi tão grande nos locais alternativos que derrubou o preço das camisinhas nas farmácias, encontradas pelo Núcleo de Saúde por R$ 2 e pouco em drogarias da região.
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Aliás, um mea-culpa. Também a imprensa praticamente só fala do preservativo nas datas pautadas pelos governos. A exemplo deste blog.
As camisinhas são a única forma de prevenir a infecção contra o vírus da Aids. Mas não a esqueça nesta noitada e nem nas folias que ainda virão. Não importa sua idade ou se o (a) parceiro (a) é um amor de um ou de muitos Carnavais.