E Chagas perdeu para a gripe suína

Estadão

13 Julho 2009 | 19h47

A Doença de Chagas, que mata 14 mil por ano na América Latina, é o problema de saúde mais negligenciado, entre todos aqueles que não recebem incentivos para pesquisa e desenvolvimento de novas drogas.

O ano de 2009, em que ocorreu o centenário da descoberta da doença, era para ser o marco de uma nova trajetória. Mas até a Assembleia Mundial da Saúde, em maio, baniu o problema de sua agenda, encurtada e tomada pela nova gripe suína.

“Foi realmente uma lástima. 2009, ano do centenário, era uma oportunidade para que houvesse uma resolução da assembleia sobre o tratamento”, afirma Eric Stobbaerts, coordenador da campanha de Chagas da ONG DNDi(Drugs for Neglected Diseases initiative, ou iniciativa drogas para doenças negligenciadas), que na última quinta-feira, dia do aniversário do descobridor do mal, o brasileiro Carlos Chagas, lançou, na praia de Copacabana, uma campanha pelo tratamento dos doentes (a foto abaixo foi feita por Gutemberg Brito, do Instituto Oswaldo Cruz).

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Segundo artigo publicado na revista científica PloS Neglected Tropical Diseases, em fevereiro deste ano,dos 1.556 medicamentos descobertos desde 1975, apenas 21 foram para doenças negligenciadas, mas nenhum para Doença de Chagas, que recebeu apenas 0,25% dos R$ 2,5 bilhões de dólares investidos em nas doenças esquecidas em 2007.

Não existem ainda, por exemplo, tratamentos adequados para a fase crônica do problema, nem pediátricos , o que obriga as mães a quebrar os comprimidos de adultos em até 12 pedaços, como destaca a DNDi.

Stobbaerts diz que ainda há esperança, foi rascunhado em encontro regional da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) um documento sobre o tema, que fala da necessidade de tratamento e diagnóstico, mas que deve ser votado só em outubro.

“É um pouco ilusório achar que um dia se possa erradicar a doença. Há outras formas de transmissão, novos vetores, a transmissão da mãe para a crianças, por sangue contaminado, doação de órgãos, a transmissão oral. Temos de continuar com a prevenção e controle dos vetores, mas o desafio mesmo agora são os 2 milhões que necessitam de tratamento”, destaca Stobbaerts.