Lembrando de Uganda

Estadão

18 Março 2009 | 20h53

Pouco antes de colocar os pés pela primeira vez na África, continente em que ocorrem 75% das mortes por aids no mundo, Bento XVI condenou a camisinha e defendeu a abstinência como único caminho para impedir o avanço da epidemia. Na opinião do papa –e dos que o seguem –, o preservativo ajudaria a disseminar o HIV, por supostamente incentivar a promiscuidade.

Não demorou muito para que alguns, na esteira da declaração papal, lembrassem de Uganda. Nos últimos anos, a nação africana de 31 milhões de habitantes é utilizada como exemplo por aqueles que buscam justificar cientificamente argumentos religiosos contra o uso do preservativo. Para essas pessoas, o país teria reduzido as taxas de infecção pelo HIV porque adotou uma política de combate à Aids baseada na abstinência. Será verdade? Vamos aos fatos.

Sim, Uganda aparentemente vem conseguindo reduzir as taxas de incidência e prevalência do HIV desde os anos 80 –a prevalência caiu de 15% em 91 para 4% hoje. Sim, o país foi uma das nações africanas que no governo Bush receberam recursos para o combate a aids, condicionados à adoção da estratégia ABC (sigla em inglês para abstinência, fidelidade e camisinhas, nesta ordem de prioridade). Mas não foi uma política de saúde pública baseada na abstinência que mudou o curso da epidemia. Adivinhe o que foi.

Em 2003, o

Documento

, instituição com sede em Washington que realiza pesquisas na área de ciências sociais, concluiu que um aumento significativo do uso de camisinhas, somado a um aumento da idade de início das relações sexuais e redução do número de parceiros explicam o sucesso do programa de combate à aids de Uganda. No país, o uso da camisinha só aumentou desde os anos 90, entre diferentes faixas etárias e populações.

Entre homens sexualmente ativos na faixa dos 15 aos 17 anos, por exemplo, o uso do preservativo saltou de 16% em 1995 para 55% em 2000. A estratégia de pregar a abstinência não teve um sucesso tão amplo, principalmente entre os homens mais velhos.

Outra coisa, os dados sobre prevalência no país ainda são extremamente questionáveis. Por exemplo, a suposta redução da infecção entre mulheres grávidas. Em artigo na revista científica The Lancet pesquisadores apontaram em 2002 que os dados foram colhidos em clínicas das cidades, apesar de a maior parte da população de Uganda estar nas áreas rurais.

Em resumo, não há uma bala mágica, receita fácil para combater o HIV, como informou hoje em comunicado o Unaids, programa das Nações Unidas para o combate à aids. Na nota, o órgão defende os preservativos como principal estratégia para combater o HIV nas relações sexuais e diz que os países necessitam utilizar um mix de estratégias comportamentais e biomédicas para atingir os que estão sob risco de infecção.