Mais um olé contra o fumo

Estadão

20 Dezembro 2010 | 00h09

Durante as férias na Espanha tive uma sensação de déjà vu ao ver na TV um protesto de donos de bares e restaurantes de Madrid: com discurso bem alinhavado, cartazes com letras cuidadosamente grafadas, eles tentavam barrar a lei que proíbe o fumo em todos os ambientes fechados e que deverá entrar em vigor em janeiro naquele país, na esteira do que já fizeram tantos outras nações da União Europeia, como a Itália, a Grã Bretanha e a Irlanda.

Argumentos de alguns empresários espanhóis: a lei vai aprofundar a crise econômica no país, pois os bares ficarão vazios. Também causará baderna e irritação à noite, pois pessoas deixarão de ir aos bares, beberão e gritarão pelas ruas _ e poderão causar mais acidentes, alertaram preocupados. Pergunto: mas o que farão os espanhóis sem os seus tapas (porções gratuitas de “aperitivos” servidas nos bares com as bebidas alcoólicas ) ?

Fora a brincadeira, você já não ouviu algo assim? Tudo me lembrou o clima criado por empresários e deputados contrários à lei quando São Paulo proibiu o fumo em ambientes fechados há cerca de um ano _medida que, segundo pesquisa recente da Secretaria de Estado da Saúde, fez com que metade dos fumantes reduzissem o consumo, além de proteger os não fumantes do fumo passivo, que é seu objetivo principal. Alguém ouviu dizer que algum bar fechou por causa da lei antifumo?

Documentos fornecidos pela própria indústria do fumo nos últimos anos por meio de ordens judiciais nos EUA e na Grã Bretanha apontam que a indústria de tabaco trabalha alinhada com sindicatos de bares e restaurantes quando há ameaças ao seu negócio. Patrocinou, diante de estudos que demonstraram os riscos do fumo passivo, programas para mostrar que era possível a convivência de fumantes e não fumantes com a criação de fumódromos, apontaram esses mesmos documentos. Escrevi aqui sobre isso quando a lei em São Paulo estava prestes a entrar em vigor.

A Espanha talvez seja o último mercado livre para a indústria do fumo. Lá não se respeita um não fumante _exceto que, como um bom espanhol, você diga claramente, sem a ternura brasileira, que não aguenta! Fuma-se colado a uma mulher grávida não fumante, baforadas correm soltas nos restaurantes ao lado do carrinho do bebê. Asmáticos como eu podem morrer tossindo na mesa denotando a aflição que o fumante ao lado não liga. Conhecer a encantadora noite madrilena foi um sufoco! Havia esquecido o horror de chegar em casa com o cabelo e a roupa empesteados de fumo.

Hoje, segundo a imprensa local, os restaurantes e bares com menos de 100 metros quadrados são livres para fumar e somam 80% dos locais de entretenimento. Aqueles que estão acima desta área devem estabelecer uma área separada e isolada para fumantes, caso decidam que aceitam o fumo.

O tabaco mata mais de 50.000 pessoas por ano na Espanha, onde cerca de 30%- cerca de 12 milhões de pessoas – são fumantes. No Brasil o percentual caiu para 18% nos últimos dez anos.

Apesar dos esforços contrários, parece que a lei espanhola vai mesmo para frente depois que o Senado, no último dia 14, derrubou uma tentativa de, adivinhe, criar fumódromos como alternativa à proibição total. Alguns senadores ainda protestaram, tentaram misturar as coisas dizendo que não há tratamento para todos os fumantes. Por fim, disseram duvidar que uma medida tão coercitiva possa trazer benefícios à saúde pública. Que respondam os mil garçons espanhois que, segundo a mídia do país, descobrem ter câncer de pulmão todos os anos.

Fabiane Leite é repórter da área de saúde desde 1999, dedicada principalmente à cobertura de temas de interesse da saúde pública e dos planos privados de saúde. Trabalhou no Jornal da Tarde, Folha Online, Folha de São Paulo e atualmente é repórter da seção Vida do jornal O Estado de São Paulo. Acredita que a saúde é o princípio básico para a felicidade.

Mais conteúdo sobre:

Espanhafumolei antifumoTabagismo