O bebê roubado

Estadão

06 Maio 2010 | 18h17

Com 15 anos, duas gestações que não deram certo e auxílio da falta de segurança na maternidade de um hospital uma adolescente paulistana conseguiu roubar um bebê na última terça-feira.

A história de J., relatada hoje pela repórter Laura Capriglione, retrata a de muitas meninas que, conscientes dos métodos contraceptivos, mas carentes de expectativas, apostam na gravidez como projeto de vida.

A última Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Mulher, realizada em 2006, já alertava: a proporção de mulheres de 15 a 19 anos que já são mães aumentou, de 15% para 19%.

Claro, há dificuldades de acesso a anticoncepcionais, uso errado, medo, questões religiosas, mas especialistas apontam que o ponto crucial nesse fenômeno são mesmos as dificuldades para essas jovens vislumbrarem um espaço na sociedade além do papel de mãe. Ser mãe, em muitos contextos, é um caminho para provar amor, gerar respeito, ganhar um lugar melhor mesmo na casa apertada, respeito e carinho na comunidade, ou mesmo direito a uma alimentação melhor.

E é fato também que a gravidez, nos jornais e revistas, nas novelas, é só alegria, são poucos os veículos que mostram o que é ter um bebê aos 15, ou 16 – exceção ao Grávida aos 16, da MTV.

Outro aspecto que a história revela é a necessidade de atenção e cuidado profissional após a perda de uma criança, seja qual for a idade gestacional.

J., que escreveu um pedido de desculpas à mãe do bebê, escondeu a perda por meses. Estava com sangramento e infecção e, mesmo com o desejo de esconder a decepção da família, poderia ter encontrado amparo em um serviço de saúde, que a ajudasse a encontrar apoio da família e a aliviar o sofrimento. Mas, parece, não tinha ninguém, nenhum projeto em que confiasse, a não ser o bebê que esperou.

Nesta quinta, J. foi levada para a Fundação Casa, antiga Febem. Ás últimas notícias dão conta que o juiz sequer ouviu os pais.

Fabiane Leite é repórter da área de saúde desde 1999, dedicada principalmente à cobertura de saúde pública e privada. Trabalhou no Jornal da Tarde, Folha Online, Folha de São Paulo e atualmente é repórter da seção Vida do jornal O Estado de São Paulo. Acredita que a saúde é o princípio básico para a felicidade.