O doutor não lava as mãos

Estadão

10 Julho 2010 | 12h55

É estarrecedor. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária divulgou na última sexta-feira estimativa de que apenas 40% dos funcionários de hospitais e clínicas têm o hábito de lavar as mãos, a principal recomendação para evitar infecções hospitalares.

A Anvisa abriu consulta pública para que o álcool , considerado o padrão ouro de lavagem das mãos em unidades de saúde pela Organização Mundial da Saúde, passe a estar disponível obrigatoriamente nesses locais _sim, não é exigência ainda! O produto deverá estar disponível nas versões gel, líquido e espuma. Segundo destacou a Anvisa, o álcool já se mostrou melhor do que água e sabão.

Veja a incongruência: locais que deveriam tratar estão infeccionando e matando um sem-número de pessoas por simples desleixo. São raras os que têm uma pia ou um aparelho para dispensar álcool em gel nos quartos.

Médicos e outros profissionais de saúde saltam de quarto em quarto sem preocupação alguma _luvas de nada adiantam se a mão que as veste está suja. Bom, médicos e outros profissionais de saúde sequer retiram o avental para ir almoçar … e o problema não é infectar o avental, mas sim o que o jaleco leva para o restaurante por quilo !!!

Enquanto os hospitais terão mais 180 dias (!!!) para opinar sobre a proposta da Anvisa _a democracia das decisões do órgão regulador é importantíssima, mas neste caso acho que não precisava tanto _ a minha sugestão é: torne-se um paciente ou um acompanhante de paciente muito chato: pergunte se o profissional lavou as mãos! Pergunte se o estetoscópio é o mesmo que acabou de ser usado no quarto ao lado. O termômetro também. Sem medo. Aliás ser sempre um paciente chato, questionador, é seu direito.

Importante (atualizado em 20/7): Os hospitais terão 60 dias para se manifestar sobre a proposta da Anvisa. Os 180 dias são para colocar a norma em prática, ao contrário do que escrevi acima. Abraços.

Fabiane Leite é repórter da área de saúde desde 1999, dedicada principalmente à cobertura de temas de interesse da saúde pública e dos planos privados de saúde. Trabalhou no Jornal da Tarde, Folha Online, Folha de São Paulo e atualmente é repórter da seção Vida do jornal O Estado de São Paulo. Acredita que a saúde é o princípio básico para a felicidade.