O legado de Wakefield

Estadão

24 Maio 2010 | 23h57

O médico que aterrorizou milhares de pais associando levianamente vacinas infantis e autismo, o que nunca foi provado cientificamente, foi finalmente banido do conselho de medicina britânico hoje.

cascata

Porém, há representantes do mal causado por ele em todos os países.

Na última sexta-feira meu amigo Herton Escobar adentrou a redação com exemplares de um jornal, patrocinado por uma escola de línguas, pregando contra as vacinas. Havia bolos do tal jornaleco à disposição na frente de uma padaria no bairro nobre de Moema, na zona sul de São Paulo, relatou ele. Aliás, detalhe: a tal escola se apresenta como escola de línguas e “terapia”.

Também no Brasil já há coberturas insuficientes de vacinas entre os mais abastados do Sudeste e, supostamente, mais (mal) informados.

Veja o estrago causado por Wakefield, segundo informações da Associated Press.

– O “estudo” do médico foi desacreditado em 1998, mas mesmo assim as coberturas de vacinação nunca mais foram as mesmas (caíram de 95% para 50% no início da década passada no Reino Unido, por exemplo). Além disso, há surtos de doenças como o sarampo nos EUA e Europa e o “médico” ainda tem apoio de celebridades como o ator Jim Carrey (ah, não, meu ator predileto …).“Este é o legado de Wakefield”. destacou Paul Offit, responsável pela área de doenças infecciosas da Universidade da Pensylvannia e um especialista na história das vacinas.

A expulsão de Wakefield foi baseada principalmente na descoberta de que ele baseou seus “achados” em amostras de sangue colhidas de criancinhas que participavam da festa de aniversário de seu filho e que ganharam US$ 6 dólares pela “participação”. As regras da pesquisa científica séria, ética, mandam que haja consentimento assinado do sujeito da pesquisa ou de seus pais. No Brasil, não pode haver remuneração de jeito nenhum.

Offit duvida que o banimento de Wakefield da medicina faça diferença.“Ele tornou-se quase Cristo, não importa que a ciência prove que ele estava errado. Ele é um heroi para pais que pensam que ninguém mais os ouve.”

Fabiane Leite é repórter da área de saúde desde 1999, dedicada principalmente à cobertura de saúde pública e privada. Trabalhou no Jornal da Tarde, Folha Online, Folha de São Paulo e atualmente é repórter da seção Vida do jornal O Estado de São Paulo. Acredita que a saúde é o princípio básico para a felicidade.

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