Paris e a ressaca

Estadão

19 Fevereiro 2010 | 00h32

Balanço pós Carnaval: cerveja, cerveja e cerveja na TV e um “olé” na autorregulamentação das propagandas da bebida. Defendida por anunciantes e agências de publicidade como a solução ideal para conter os estímulos ao consumo abusivo de álcool em qualquer época -e evitar restrições do governo às propagandas de cervejas – a autorregulamentação foi rasgada por Paris Hilton.

O código brasileiro de autorregulamentação publicitária diz no seu anexo “p”, que trata das cervejas: “eventuais apelos à sensualidade não constituirão o principal conteúdo da mensagem; modelos publicitários jamais serão tratados como objeto sexual;não serão utilizadas imagens, linguagem ou argumentos que sugiram ser o consumo do produto sinal de maturidade ou que ele contribua para maior coragem pessoal, êxito profissional ou social, ou que proporcione ao consumidor maior poder de sedução.” Tudo isso para manter as cervejarias livres para anunciar no horário em que quiserem (só destilados têm limite no Brasil).

E o que era Paris, na propaganda de lançamento de uma cerveja, dançando ao som de música de strip tease para o Rio ver? Há também aquele da outra cervejaria, que sugere cobrir a mocinha de microshort e mini blusa sem fantasia no Carnaval.

Aliás, Paris acabou mesmo é rasgando a fantasia, cambaleando bêbada na festa da cerveja onde, adivinhe, teria tomado mais cerveja do que deveria, segundo presentes no evento que a fotografaram de quatro em um vestido transparente. Nada mais adequado para o Brasil do binge drinking, termo que designa a “prática” de beber cinco ou mais doses de uma vez só –no caso dos homens –ou quatro doses ou mais –caso das mulheres. Aqui, uma recente pesquisa mostrou que os 25% dos brasileiros consomem 80% do álcool. Ou seja, entre os bebedores, um porcentual importante se encharca como Paris e faz coisas muito piores. O abuso é problema de muitos, não de poucos, como dizem as cervejarias.

Bem, vamos saltar os blocos e desfiles patrocinados. Nem um respeitado telejornal escapou da pauta ideal das cervejarias, falando docemente das ressacas. Como curar a ressaca?, perguntava candidamente a matéria. Um blá blá blá danado para falar de receitas que não funcionam. Ainda bem que a apresentadora lembrou, depois que a reportagem acabou, de uma opção pouco explorada e até mal vista: não beber.