Um elefante no banco de trás

Estadão

31 Março 2010 | 18h04

Um dos dados mais preocupantes do suplemento de Saúde da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (PNAD) de 2008, divulgado hoje pelo IBGE, é o nível do uso do cinto de segurança: apenas 73,2% dos brasileiros que dirigem ou trafegam no banco da frente dos automóveis (95,2 milhões de pessoas) usam cinto de segurança. Pior: apenas 37,3% da população (50,9 milhões) que anda como passageiro no banco de trás de automóvel ou van usa sempre ou quase sempre o cinto.

Em países desenvolvidos, campanhas simples, nos últimos anos, explicam que usar o cinto na frente e levar atrás alguém sem o cinto pode não adiantar nada. A mais célebre é bem direta, lembra o vice-presidente da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego, José Montal: é como levar um elefante no banco de trás. Em uma batida, a velocidade pode fazer o peso do passageiro do banco traseiro ser equivalente a um elefante de 3 toneladas e o arremessar sobre o motorista ou o carona com cinto, como mostra o anúncio abaixo.

“O uso do cinto de segurança no banco de trás é quase nulo, a ponto de as pessoas esconderem o cinto para não atrapalhar”, diz Montal. “É algo muito perigoso. O cinto é a vacina da segurança de trânsito”, continua o médico. “É um meio certo de preservar a vida e diminuir o sofrimento”.

Eu, usuária de táxi, já fui olhada com estranheza por alguns amigos taxistas quando cobrei o cinto traseiro. É habito em São Paulo a categoria esconder o equipamento dentro do banco. “O passageiro reclama que enrosca”, disse-me um deles um certo dia. Que tal uma campanha para a frota branca?

Montal recorda a história do cinto no Brasil: tudo começou em 94, com uma lei de Paulo Maluf (sim, foi “obra” dele!), então prefeito de São Paulo. Naquela ocasião, em que a associação acompanhou o processo, as autoridades avaliaram que fazer pressão também sobre o uso atrás poderia soar como exagero. Mesmo depois de virar regra com possibilidade de multa no Código de Trânsito Brasileiro, o cinto atrás é raridade na maior capital da América Latina.

Por fim, sem esquecer do cinto na frente: os índices neste caso também são muito preocupantes, avalia Montal. Em São Paulo, dados da Companhia de Engenharia de Tráfego vinham apontando que a adesão era de 90%. “Costumávamos dizer lá fora que temos índice de primeiro mundo, mas agora sabemos que no Brasil não é bem assim”, afirma o médico. Bem, basta entrar em qualquer van do transporte público paulistano para encontrar centenas de meninos e meninas cobradores em pé ou aboletados ao lado do motorista, trafegando sem qualquer segurança.

Segundo o Ibge, em 2008, 4,8 milhões tiveram envolvimento em acidente de trânsito e 52,9% deles eram condutores ou passageiros de automóvel ou van. Cerca de 30,7% dos envolvidos em acidente de trânsito deixaram de realizar suas atividades habituais por causa dos desastres.