Arroz sem crise

Estadão

30 Agosto 2011 | 16h43

Preço de produção de R$ 980 por hectare, ante o dobro na lavoura convencional. Lucratividade de 30% a 35%, ante prejuízo na lavoura convencional, na atual crise por que passa a cultura do arroz. Produtividade praticamente igual à de um plantio convencional. Mas, principalmente, autonomia. O produtor sabe o que produz, quanto produz, domina toda a cadeia, da produção de semente ao plantio, colheita, secagem, beneficiamento, embalagem e comercialização.

Quem plantou arroz sob os princípios da agricultura orgânica no Rio Grande do Sul nesta safra não teve prejuízo.

Com um custo de produção bem menor, o baixo preço pago ao produtor pela saca de 50 quilos, que chegou a R$ 17 nos piores dias – hoje está por volta de R$ 25 – ainda permitiu lucro às 407 famílias de cooperados da Cooperativa Central dos Assentamentos do Rio Grande do Sul (Coceargs), com plantios em Eldorado do Sul e mais 12 municípios da região.

Produtores convencionais fronteiriços aos orgânicos começam a perceber que de loucos os vizinhos não têm nada. “Há dez anos, quando começamos, era isso o que os arrozeiros convencionais pensavam dos assentados”, diz o presidente da Coceargs e produtor de arroz orgânico Emerson Giacomelli. “Hoje eles querem saber como fazemos para ter lucro no meio desta crise”, comenta o presidente.

O arroz orgânico dos assentados, cuja produção é de 300 sacas de 50 quilos por safra e 20 mil sacas de sementes orgânicas, é vendido sob a marca Terra Livre, em mercados públicos, na merenda escolar, em feiras. O preço ao consumidor? R$ 1,60 por quilo, diz Giacomelli. Também não fica nada a dever ao arroz convencional.

Há dez anos os assentados, que já produziam arroz, partiram para o cultivo orgânico. “Foi uma decisão política”, explica Giacomelli. “Se continuássemos no convencional, teríamos quebrado”, diz, com toda certeza e lembrando de vários amigos arrozeiros que continuam no plantio convencional. E quebraram. “Nós entramos na crise, mas não quebramos com a crise.”

O grande segredo disso, acredita Giacomelli, é o baixo custo de produção, de R$ 15 a R$ 16 por saca, ante R$ 28 no plantio convencional. “Tem assentado nosso que até consegue baixar ainda mais este custo”, diz. O presidente do Instituto Rio-Grandense do Arroz (Irga), Cláudio Brayer Pereira, lembra que 70% dos produtores de arroz do Rio Grande do Sul (são 18 mil) plantam menos de 60 hectares. “Uma área perfeitamente viável para ser convertida à agricultura orgânica”, defendeu, na segunda-feira, durante seminário na Expointer sobre a cultura do arroz.

O principal gargalo da produção, porém, continua sendo a comercialização, diz Giacomelli. “Ainda não conseguimos escoar 100% da produção; é complicado encontrar compradores de arroz orgânico”, diz o rizicultor, acrescentando que os grãos ficarão estocados até que sejam vendidos como foram produzidos e merecem: como arroz orgânico. “É uma das vantagens deste cereal, que pode ser armazenado por tempo indefinido”, diz ele, muito satisfeito com a opção feita pelos assentados há dez anos. “Descobrimos o gostinho da autonomia”, finaliza.