Atitude orgânica

Entre as atitudes orgânicas está a eliminação de embalagens não retornáveis

Estadão

04 Setembro 2010 | 22h15

Outro dia, num bate-papo com o produtor orgânico Guaraci Diniz (veja o post inaugural deste blog), comentei que havia desistido de contratar babás para meus dois filhos, ainda pequenos. Os motivos da minha desistência não importam agora, mas eu lhe disse que desde então quem toma conta integralmente dos meus filhos, com exceção do período escolar, sou eu e o pai deles. O produtor me comentou: – Isso é uma atitude orgânica.

O que ele quis dizer, no contexto do que conversávamos, é que de certa maneira tornei os cuidados com meus filhos mais “sustentável”, ou seja, trouxe menos “recursos” de fora (no caso, a babá) para ajudar a gerir a família. No caso do sítio de Guaraci, onde 87% de todas as necessidades são providenciadas dentro do próprio sítio e para ele retornam, praticamente fechando o ciclo da sustentabilidade, também estamos diante de um sítio muito mais que orgânico, mas com atitude orgânica. Lógico que não dá nem para comparar a minha atitude com todas as que ele toma diariamente em sua propriedade e sua vida, para torná-las cada vez mais orgânicas.

Ainda sobre isso lembrei-me de uma amiga brasileira, que mora na Austrália, e inseriu em seu cotidiano, em seu modo de vida, inúmeras atitudes orgânicas. Ela não é produtora orgânica, mas é uma pessoa “orgânica”. Logicamente só consome produtos orgânicos; recicla seu lixo orgânico, transformando-o em composto e aplicando-o no jardim da própria casa e – o que mais me chamou a atenção – evita ao máximo produzir lixo não orgânico. Atitude tão difícil em terras brasileiras, onde é quase impossível comprar 1 litro de óleo de cozinha que não venha em garrafas PET.

Na Austrália, onde ela mora, em Byron Bay, por exemplo, há um posto de abastecimento de óleo de cozinha e de outros bens de consumo, como grãos, arroz, etc. Ela leva a própria embalagem, compra o que quer abastecendo seus próprios recipientes. Lembro-me de ela ter dito que o seu recipiente para óleo de cozinha era o mesmo há alguns anos.

Lembrei-me das antigas mercearias de bairro na capital paulistana, onde os mantimentos eram vendidos a granel – aquela sacaria de arroz, feijão, milho, farinha, etc., ficava ali, exposta – e o que se fazia era exatamente isso, com exceção de que levávamos para casa, em vez de o próprio recipiente abastecido, um saco de papel cheio de arroz, por exemplo. A higiene dos estabelecimentos é algo questionável, mas comprar a granel era algo muito menos nocivo ao ambiente do que o plástico que hoje embala o arroz nos supermercados e que vai ser transportado dentro da sacolinha plástica.

Depois dessa conversa fui às compras e fiquei meio desesperada – viramos praticamente reféns das embalagens. Mais higiênicas com certeza, mas, embora recicláveis, não retornáveis. Quem se habilita, enfim, a abrir uma cadeia de mercearias onde tudo se vende a granel, os produtos, higienicamente acondicionados, sejam orgânicos em sua maioria e que tenha um aviso na porta: “Só vendemos se você trouxer a sua própria embalagem?”