Um agricultor “de existência”

Guaraci Diniz, do Sítio Duas Cachoeiras, em Amparo (SP), é produtor orgânico e tem índice de 87% de sustentabilidade em sua propriedade.

Estadão

02 Setembro 2010 | 16h07

Guaraci Diniz reflorestou 20 hectares de seu sítio de 30 hectares / Foto de Sérgio Neves/AE

Guaraci Diniz reflorestou 20 hectares de seu sítio de 30 hectares / Foto de Sérgio Neves/AE

Ele é o produtor orgânico mais orgânico que eu conheci. Cultiva vários produtos num sítio de 30 hectares – dos quais 20 hectares reflorestados, num paciente trabalho de recomposição –, vende o excedente, sobretudo mel e lã. “Não é agricultura de subsistência, é de existência”, diz Guaraci Diniz, que há 25 anos assumiu o Sítio Duas Cachoeiras, em Amparo (SP) e, junto com sua esposa, Cecília, ensina que é possível, sim, tratar a terra, mesmo que seja um pequeno pedaço, como um organismo. “Se é agricultura orgânica, agroecológica, natural, biodinâmica… Esses rótulos não importam e estão, inclusive, sendo muito usados para fazer marketing de algo bem distante do que originariamente seria a agricultura orgânica”, critica. “Agricultura orgânica não é só cultivar alimentos sem adubo químico e agrotóxicos”, diz ele. “Se eu preciso aplicar um produto à base de alho, por exemplo, para controlar uma praga na plantação, embora seja um defensivo natural, isso já é tratar de um organismo que está doente”, explica. Para ele, o agricultor, incluindo o orgânico, deveria mudar a maneira de pensar, passar a cultivar um “organismo”, torná-lo saudável, assim como tentamos fazer com o nosso próprio corpo que, quando tratado da maneira correta, não fica doente.

Guaraci também é produtor de água. Com o reflorestamento de quase toda a sua propriedade, fez rebrotar mais três nascentes num terreno antes tomado por pasto e café. “Agora tenho cinco nascentes no sítio, que não secam de jeito nenhum no inverno e até abastecem as propriedades vizinhas, que praticam agricultura convencional e ficam sem água no período da seca, como agora.” Guaraci nem gosta, aliás, de se autodenominar agricultor – “Limita muito, né? A gente pode ser tantas outras coisas além de agricultor…”, diz.

Não é nesse post inaugural do meu blog sobre o universo dos alimentos orgânicos que eu vou contar todo o trabalho que Guaraci vem desenvolvendo no seu sítio. Não ia caber e me ensinaram desde já: texto de blog é curto, o que já não está sendo o caso deste post.

Mas, para quem gosta de números, eis um que resume o índice de sustentabilidade obtido por Guaraci em seu sítio: 87%, segundo o Laboratório de Engenharia Ecológica e Aplicada da Unicamp. Ou seja, 87% das necessidades da propriedade são obtidas na própria propriedade, desde alimentos até energia. Um sítio quase 100% autossustentável.

Quando peço a ele para citar algum outro agricultor que viva da mesma maneira, ele diz que há. Poucos, porém. Ernst Götsch, que vive em Ilhéus, na Bahia, e é o papa da agrofloresta no País, poderia ser um exemplo? “Ele vai além”, diz Guaraci. “Tira todos os alimentos da agrofloresta, respeitando o ciclo de cada alimento. Não tem laranja o ano todo, como na agricultura convencional, e isso é respeitado, o ciclo da natureza”, diz. “Basta mudar a forma de pensar. Isso é possível.”