Analgésico indicado para grávidas pode prejudicar o cérebro do bebê

Giuliana Reginatto

25 Fevereiro 2014 | 21h40

Um estudo científico publicado nesta terça-feira, dia 25, questiona a segurança do paracetamol (acetaminofeno), presente em muitos analgésicos comuns, para mulheres grávidas. Seu uso na gestação poderia afetar o cérebro do bebê em formação.

É a primeira vez que a substância, comercializada em medicamentos desde a década de 1950 e indicada frequentemente para gestantes, aparece relacionada a um risco aumentado de transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) em crianças cujas mães fizeram uso do remédio pelo menos uma vez durante a gestação.

O alerta sobre o paracetamol está em um relatório da revista de pediatria do Jornal da Associação Médica Americana (Jama), assinado por pesquisadores da Escola de Saúde Pública Fielding, um departamento da Universidade da Califórnia (UCLA), e por cientistas da Universidade de Aharus, na Dinamarca.

O estudo levou em conta 64.322 mães e filhos que haviam participado de um levantamento entre 1996 e 2002. Mais da metade dessas mulheres tomou paracetamol ao menos uma vez na gravidez.

Os pesquisadores descobriram que as mulheres grávidas que tomaram o medicamento tiveram um risco 37% maior de ter filhos com uma forma severa de TDAH (transtorno hiperquinético), em comparação com as mulheres grávidas que não usaram o analgésico. Além disso, as que foram medicadas tiveram 29% mais probabilidades de ter filhos aos quais foram prescritos remédios para o TDAH e 13% mais risco de ter crianças com sintomas similares aos do TDAH aos 7 anos.

Quanto maior o tempo durante o qual o paracetamol foi tomado, mais forte a associação com o TDAH. O risco de transtorno hiperquinético subiu mais de 50% em crianças cujas mães tinham usado a medicação por mais de 20 semanas na gravidez.

Fatores ambientais
“As causas do TDAH não são bem compreendidas, mas fatores ambientais e genéticos contribuem claramente para isso”, disse Beate Ritz, presidente do Departamento de Epidemiologia da Escola de Fielding e um dos líderes do estudo. “Sabemos que tem havido um rápido aumento em distúrbios do desenvolvimento neurológico da infância, incluindo TDAH, ao longo das últimas décadas, e é provável que o aumento não seja apenas atribuído a melhores diagnósticos ou à sensibilização dos pais. É provável que existam componentes ambientais também”, complementou.

Ex-presidente da UCLA e co-autor do estudo, Jorn Olsen disse que os resultados motivaram os pesquisadores a investigar causas ambientais evitáveis para o TDAH. “Precisamos de mais pesquisas para verificar estes resultados, mas, se eles refletem associações causais, então o paracetamol não deve mais ser considerado uma droga ‘segura’ para o uso durante a gravidez”, completou.

Cautela
Em um editorial publicado junto com a pesquisa, especialistas fizeram algumas ponderações sobre as conclusões. “Os resultados deste estudo devem ser interpretados com cautela e não devem mudar as práticas habituais”, escreveu um grupo de cientistas da Escola de Medicina da Universidade de Cardiff, na Grã-Bretanha.

Os especialistas também ressaltaram que serão necessários mais estudos para confirmar as conclusões obtidas pelos cientistas. Será preciso, ainda, investigar qual é o mecanismo envolvido na ação do paracetamol sobre o cérebro do bebê em formação – na pesquisa, foi constatada apenas uma prevalência maior do distúrbio em crianças cujas mães ingeriram o medicamento na gestação, mas não há detalhes sobre como isso ocorre.

Hipótese
“Sabe-se a partir de dados obtidos em animais que o paracetamol é um disruptor hormonal (substâncias que simulam a ação dos hormônios) e exposições hormonais anormais na gravidez podem influenciar no desenvolvimento cerebral do feto”, ressaltou Ritz.

O pesquisador lembrou que o paracetamol pode atravessar a barreira placentária. “É plausível que ele possa interromper o desenvolvimento do cérebro fetal por interferir nos hormônios maternos. Ou pode agir por meio de neurotoxicidade, com a indução de estresse oxidativo, causando a morte de neurônios”, completou.

* O estudo foi financiado pelo Conselho de Pesquisa Médica Dinamarquês e os pesquisadores declararam que não há conflito de interesses no estudo