Células do corpo podem ‘aprender’ a destruir tumores

Giuliana Reginatto

20 Fevereiro 2014 | 22h13

Células de pacientes com câncer podem “aprender” a destruir alguns tipos de tumores. Um estudo norte-americano divulgado nesta quarta-feira, dia 19, pela publicação científica Science Translational Medicine, reforça o potencial da técnica, chamada imunoterapia, no combate a alguns tipos de tumores sanguíneos. Das 16 pessoas que foram submetidas ao procedimento durante o estudo, 14 apresentaram remissão da doença ( quando não há sinais de atividade do tumor) sem o auxílio de outros tratamentos, o que significa que a técnica obteve sucesso em 88% dos casos.

A imunoterapia é pesquisada pelos cientistas há várias décadas, com aplicação para outras doenças, mas os resultados mais promissores apareceram apenas recentemente. A terapia, que em 2013 foi considerada o maior avanço do ano pela publicação Science, consiste em modular as células do sistema imunológico do próprio paciente para reconhecer e destruir células do câncer – no caso do estudo atual, o objetivo era atacar tecidos de um tipo de tumor sanguíneo chamado leucemia linfoblástica aguda (LLA). “Esse é um fenômeno que pode representar uma reviravolta paradigmática na forma como tratamos o câncer”, diz Renier Brentjens, coordenador do estudo.

No trabalho, os pesquisadores do Centro de Câncer Memorial Sloan Kettering, em Nova York, lembraram que o câncer do tipo LLA, embora seja uma variedade com boa perspectiva de tratamento, muito frequentemente faz com que os pacientes se tornem resistentes à quimioterapia e apresentem recaídas. Na pesquisa divulgada nesta semana, todos os voluntários estavam nessas condições quando experimentaram a imunoterapia: ou haviam sofrido recaída ou tinham desenvolvido resistência ao tratamento quimioterápico.

Células reprogramadas
A idade média dos voluntários tratados com a imunoterapia no estudo era de 50 anos. Eles receberam versões geneticamente modificadas de suas próprias células de defesa, que foram reprogramadas para atacar as células cancerígenas.

No procedimento, algumas células de defesa do paciente, chamadas de células T, foram alteradas com uma espécie de gel. Assim, elas se tornaram capazes de identificar a proteína CD19, presente nas células dos tumores, e atacaram essas estruturas. As células T em seu estado natural costumam defender o organismo contra vírus e bactérias, mas têm pouca atividade contra tumores sanguíneos.

No estudo, a remissão da doença mais duradoura foi de dois anos, conforme descreveram os cientistas no artigo da Science Translational Medicine. No ano passado, a equipe de Brentjens já havia divulgado os primeiros resultados promissores da aplicação da técnica, quando cinco pacientes adultos foram curados após o tratamento. Agora, os pesquisadores querem descobrir se o mecanismo da imunoterapia poderia ser eficaz contra outros tipos de tumores.

*Os pesquisadores declararam no artigo que não há conflito de interesses no estudo