Mamografia anual antes dos 60 anos não reduz mortalidade por câncer, diz estudo

Giuliana Reginatto

12 Fevereiro 2014 | 19h30

Um estudo canadense que avaliou mulheres ao longo de 25 anos concluiu que o exame anual de mamografia em voluntárias com idade entre 40 e 59 anos não reduz a mortalidade por câncer de mama na comparação com o exame clínico das mamas. A pesquisa, divulgada nesta quarta-feira, dia 12, pela publicação científica British Medical Journal (BMJ), uma das mais importantes do mundo na área médica, reacende a polêmica em torno da idade mais adequada para a indicação do procedimento.

No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) recomenda a triagem a partir dos 50 anos, a cada dois anos, para mulheres sem riscos conhecidos relacionados à doença (casos de mãe ou irmãs com a doença, antes da menopausa, por exemplo). Essa regra é seguida também por vários países europeus. Algumas sociedades médicas norte-americanas e brasileiras, contudo, argumentam que o exame deveria ser feito anualmente, a partir dos 40 anos.

O estudo do BMJ mostrou também que 22% dos tumores de mama detectados durante o trabalho eram inofensivos, o que significa que uma a cada 424 mulheres avaliadas passou pela mamografia, exposta à radiação e ao desgaste emocional da descoberta de um tumor, desnecessariamente. O excesso de diagnósticos se refere à detecção de tumores que não provocariam sintomas graves nem levariam as pacientes à morte.

Foram analisadas pouco mais de 89 mil mulheres, divididas em dois grupos. Em um deles, as voluntárias fizeram a mamografia anualmente, por cinco anos. No outro, elas passaram apenas pelo exame clínico das mamas. Ao longo do estudo, entre as mulheres que realizaram a mamografia, 3.250 foram diagnosticadas com câncer de mama e 500 morreram. No grupo que não realizou o exame, 3.133 receberam o mesmo diagnóstico e 505 morreram. “Assim, a mortalidade cumulativa de câncer de mama foi semelhante entre os dois grupos”, escreveram os autores.

Os pesquisadores salientam que os resultados não podem ser generalizados, dada as diferenças entre os países na área da saúde. Em nações tecnicamente avançadas, segundo eles, os resultados “reforçam a opinião de que as formas de triagem por mamografia devem ser urgentemente reavaliadas pelos dirigentes políticos”.

Debate
Em 2012, um estudo menos abrangente, com 1977 pacientes, acompanhadas por 18 anos, indicou que a mamografia, quando realizada entre os 40 e os 49 anos, poderia conduzir a um tratamento menos invasivo, com maior chance de cura. A pesquisa, realizada pelo Instituto Sueco de Câncer, em Seattle, nos Estados Unidos, foi publicada na época pelo periódico científico Radiology.

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) é uma das entidades que defendem o início do rastreamento por meio da mamografia a partir dos 40 anos de idade. Sobre o estudo canadense, o órgão enviou uma nota ao Pílulas:

“A SBM entende que a realidade do Canadá difere do Brasil, já que o sistema de saúde pública é muito mais adequado, assim como a população é mais disciplinada. Essas duas situações juntas certamente contribuíram favoravelmente para que as mulheres que foram submetidas ao exame físico e encaminhadas para o tratamento logo no início pudessem ter acesso ao serviço de saúde pública com rapidez, o que não acontece no Brasil”, informa o texto.

A nota, assinada pelo presidente da SBM, o médico Ruffo de Freitas Junior, defende “fortemente a necessidade de continuação do rastreamento mamográfico para todas as mulheres brasileiras entre 40 e 69 anos, conforme consta em lei, até que estudos mais adequados possam ser desenvolvidos em nosso País”.

Os autores do estudo canadense declararam ao BJM que não há conflito de interesses no estudo. A pesquisa foi financiada por vários órgãos de saúde e fundações canadenses, entre eles o Instituto Nacional do Câncer do Canadá.