Recibos de cartão bancário liberam substância tóxica

Giuliana Reginatto

26 Fevereiro 2014 | 22h52

Um novo estudo reforça a ação prejudicial para a saúde dos papéis usados para recibos de cartão de crédito e débito. Manusear esse tipo de comprovante, impressos em um material chamado de papel térmico, pode levar a uma contaminação pelo composto químico bisfenol A (BPA), segundo um pequeno estudo divulgado nesta semana pelo The Journal of the American Medical Association (Jama), um dos mais importantes da área médica no mundo.

O bisfenol A, associado a vários problemas de saúde, de obesidade a variedades de câncer, também é comumente encontrado em plásticos rígidos e no revestimento de latas de alumínio que acondicionam alimentos. Em 2011, o Brasil proibiu a comercialização de mamadeiras com a presença da substância, decisão que passou a valer em 2012 no País.

A ligação do bisfenol A com os papéis térmicos já era conhecida, mas havia poucos estudos científicos específicos que pudessem investigar a fundo essa relação. Na nova pesquisa, realizada pelo Hospital Infantil Cincinnati, nos Estados Unidos, 24 voluntários foram orientados a segurar recibos impressos em papel térmico durante duas horas seguidas. Eles fizeram essa experiência duas vezes: com e sem luvas nitrílicas, e tiveram os níveis de bisfenol A medidos por exames de laboratório.

Antes de segurar os papéis, 83% dos voluntários apresentaram bisfenol A na urina. Após o contato com os comprovantes sem o uso de luvas, o composto foi detectado na urina de todos os voluntários. O nível de bisfenol A não sofreu alterações quando os participantes seguraram os recibos usando luvas.

Calor
O BPA é uma molécula muito instável, que pode ser liberada facilmente dos produtos – com mudanças de temperatura, por exemplo. Assim, de acordo com o estudo, “o papel térmico tem um revestimento que é sensível ao calor, o qual é utilizado no processo de impressão sobre o papel, transferindo o composto para a pele, com o manuseio pelo usuário”.

Coordenadora do estudo, Shelley Ehrlich disse que “o contágio pelos papéis térmicos é algo pouco estudado e que pode atingir sobretudo pessoas que têm contato frequente com os recibos, como as que trabalham em supermercados, lojas e postos de gasolina”. Ela lembrou que a principal fonte de contaminação pelo composto ainda é a alimentação, principalmente por meio de enlatados e produtos acondicionados em recipientes plásticos que contêm BPA e passam por grandes mudanças de temperatura – da geladeira ou do freezer para o micro-ondas, por exemplo.

Efeitos
No organismo, o BPA se comporta de modo semelhante ao hormônio estrogênio, sendo por isso conhecido como um disruptor hormonal. Por desregular o sistema endocrinológico, já foi associado, em estudos anteriores, a problemas de saúde que são influenciados por esse mecanismo: câncer de próstata, de mama e de ovário, além de obesidade e infertilidade.

* Os autores declararam que não há conflito de interesses no estudo