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A única causa de morte

Pensamos na morte como um evento que pode ter várias causas. Dizemos que tal pessoa morreu de câncer, que o outro teve um ataque cardíaco. Mas, se alguém afirmar que todos os seres vivos morrem porque algo chamado “vida” deixa de existir, ninguém vai discordar, ao contrário, vão achar que é uma afirmação óbvia. Mas “vida” é um processo mal definido cientificamente. 

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Fernando Reinach

12 Março 2016 | 03h00

Um experimento demonstrou que o que listamos como causas de morte na verdade são causas distais da morte, e que todas agem sobre um único processo, e é o colapso desse processo que causa a morte. 

É a primeira vez que os cientistas detectam experimentalmente a existência desse processo único, para o qual convergem todas as causas distais. A demonstração e detecção desse processo vai permitir que ele seja estudado diretamente. Os cientistas decidiram que não chamariam esse processo de “vida”. Ele ainda não tem nome.

O experimento foi feito com um verme chamado C. elegans. Seu ciclo de vida é de duas semanas, e é fácil cultivá-lo em laboratório. Centenas de vermes geneticamente idênticos, nascidos exatamente na mesma hora, são colocados em um mesmo ambiente. O número de vermes vivos é monitorado minuto a minuto e é feita uma curva de sobrevivência. No eixo vertical colocamos a porcentagem dos vermes vivos e no eixo horizontal, o tempo decorrido desde o início do experimento.

As curvas obtidas nesses experimentos têm uma parte plana (os vermes estão vivos), mas ela começa a cair (eles vão morrendo) e vai caindo rapidamente para valores próximos de zero. A queda fica mais lenta e o último verme morre. Esse é o experimento básico.

Os cientistas alteraram as condições em que os vermes vivem e determinaram novamente a curva. Alteraram a temperatura, a alimentação, colocaram compostos carcinogênicos, removeram genes, enfim, fizeram todas as mudanças que podiam para alterar a longevidade dos vermes. Como era de se esperar, eles conseguiram alterar o tempo médio de sobrevida. Em algumas condições, o último verme vivia 25 dias. Em outras, estavam mortos em 24h.

A descoberta surpreendente é que todas as curvas têm a mesma forma. Basta alterar a escala no eixo horizontal (tempo) e as curvas se sobrepõem. Por tudo que sabemos sobre os processos fisiológicos e bioquímicos, esse resultado não é esperado se existirem múltiplas causas para a morte. Diferentes processos têm curvas de formato distinto. Entretanto, o observado é exatamente o esperado se todas as causas de morte (temperatura, drogas, alimentação) agirem sobre um único processo e for o colapso desse processo que leva à morte. Em outras palavras, esse resultado parece demonstrar que existe algo nos seres vivos sobre o qual todas essas causas agem, e é o colapso desse único processo que determina a morte.

Esse é um conceito difícil de entender, mas uma exemplo simples me ajudou. Imagine um volume de água fervendo. A causa da fervura pode ser a chama do fogão ou as micro-ondas. Podemos pensar que a causa da fervura é o fogo ou as micro-ondas mas, na verdade, é a colisão entre moléculas de água que causa a fervura. O calor e as micro-ondas são causas distantes, a causa final é o aumento da temperatura, a colisão entre moléculas. 

Essa descoberta sugere que nos seres vivos há algum processo pouco caracterizado, que é afetado por fatores como alimento e genética (que seriam equivalentes às micro-ondas ou o fogo). Seria sobre esse processo que agiriam as causas distais da morte, mas a morte seria determinada pelo colapso desse processo. Se esse for o caso, e esses experimentos forem confirmados em outros seres vivos, só existe uma causa para as mortes. Essa descoberta vai dar o que falar.

MAIS INFORMAÇÕES: THE TEMPORAL SCALING OF CAENORHABDITIS ELEGANS AGEING. NATURE VOL. 530 PAG. 103 2016

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

 

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