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Aborto é permitido na Itália - mas, na prática, poucos médicos o fazem

70% dos ginecologistas no país europeu se recusam a levar o procedimento a cabo por questões religiosas ou pessoais

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Gaia Pianigiani,
The New York Times

28 Janeiro 2016 | 03h00

Depois que Benedetta, de 35 anos, descobriu, na 11ª semana de gestação, que o bebê que desejava "com todas as forças de seu ser" tinha problemas genéticos gravíssimos, tomou uma dolorosa decisão e pediu à ginecologista que a atendia de longa data que fizesse um aborto.

A recusa da médica - que afirmou ter objeção de consciência contra a lei italiana que legaliza o aborto feito em até 90 dias - deu início a uma busca desesperada para tentar encontrar alguém que pudesse ajudá-la.

Em um hospital, eles a aconselharam a obter uma receita de algum psiquiatra, dizendo que tinha tentado cometer suicídio, para estender o tempo permitido do procedimento; em outro, o médico sugeriu que esperasse.

"'O bebê não vai conseguir viver; é muito provável que você o perca perto da 20ª semana'. Foi isso que ele me disse", conta, ainda brava e incrédula. Ela pediu que seu sobrenome não fosse divulgado para proteger a privacidade. "Esperar que uma mulher veja a barriga crescendo e desenvolvendo uma vida condenada é desumano."

"Eu me sentia um contêiner, e não um ser humano", acrescenta.

Depois de uma luta que as feministas italianas ainda consideram uma conquista histórica, o aborto feito até os 90 dias de gravidez - e mais tarde para mulheres que correm perigo físico e mental ou em caso de patologias fetais sérias - é legal no país há mais de três décadas.

O que não significa que seja fácil encontrar um médico que o faça. 70% dos ginecologistas - e até 83% em algumas regiões mais conservadoras do sul - têm objeção de consciência em relação à lei e se recusam a levar o procedimento a cabo por questões religiosas ou pessoais em um país que continua, pelo menos culturalmente, esmagadoramente católico.

É uma situação que aflige alguns especialistas em saúde feminina, que preveem desafios ainda maiores no futuro.

"A maioria dos que não fazem objeção, como eu, está prestes a se aposentar, não demora e teremos sérios problemas para ajudar essas mulheres", lamenta Silvana Agatone, ginecologista de 62 anos de um hospital em Roma e fundadora de um site que oferece informações sobre como e onde conseguir um aborto.

Durante um ano, ela conduziu uma pesquisa por telefone, ligando para as unidades de obstetrícia de cada hospital que conseguiu localizar para saber se os médicos tinham objeção de consciência - e descobriu que apenas 1.200, em bem mais de dez mil profissionais, faziam o procedimento.

De acordo com um relatório recente, cerca de 60% dos hospitais italianos fazem abortos - "número que está caindo, mas, ainda assim, mais que satisfatório", segundo pronunciamento da ministra da Saúde, Beatrice Lorenzin.

Os especialistas concordam que a educação sexual contribuiu para o declínio geral dos abortos na Europa. Feito até três meses de gestação, o procedimento é legal na maioria dos países do continente, mesmo com restrições.

A grande diferença na Itália é a falta de médicos e centros dispostos a interromper a gravidez. Além disso, a oposição da Igreja Católica à prática criou um estigma mais forte ali que em outras nações.

Mesmo nos centros médicos que realizam o procedimento abertamente, o número de profissionais que se recusam a fazê-lo só aumenta.

"Eu sou católico e trabalho em um hospital católico, ou seja, é claro que não defendo o aborto, nem em termos práticos, nem morais. E devo dizer que, pelo menos antigamente, quem não tinha objeção sofria muito preconceito, então é bem provável que isso tenha contribuído para os números baixos", teoriza Marco Bonito, diretor da unidade de obstetrícia do Hospital San Pietro Fatebenefratelli, em Roma.

A questão, entretanto, não é tão abertamente polêmica quando nos EUA; alguns movimentos antiaborto fazem protestos nas praças das cidades bem de vez em quando e o governo municipal, pelo menos na teoria, não impede sua realização.

Na prática, algumas italianas enfrentam inúmeros obstáculos para chegar às clínicas abortivas de suas regiões, dificuldade essa que o Comitê Europeu de Direitos Sociais considera "prejudicial" à saúde.

"As mulheres que têm acesso negado às clínicas de aborto próximas de onde moram podem, de fato, ficar sem outras oportunidades efetivas de brigar por um serviço a que têm direito legalmente, sem contar que o prazo apertado pode impedi-las de buscar alternativas", afirma o órgão.

Como Benedetta, muitas italianas contam histórias semelhantes de diagnósticos tardios e problemas para encontrar médicos dispostos a ajudar.

"Temos uma lei nacional em vigor desde 1978 - a idade do meu marido, por sinal - e eu tenho que atravessar duas regiões para fazer um aborto?", indigna-se Silvia Brandimarte, de 34 anos, que ficou sabendo na 12ª semana de gestação que o bebê tinha uma doença genética grave.

Para ela também o diagnóstico deu início a uma busca frenética em vários hospitais das regiões centrais de Abruzzo e Marche até finalmente encontrar um médico que procedeu ao aborto em setembro.

"Várias médicas de outros locais me disseram que não oferecem esse serviço; dá para imaginar? Não sou nenhuma adolescente. Fui criada em uma família católica do tipo 'se Deus lhe dá, você deve ter', mas acredito que é meu direito escolher."

O aborto não-invasivo também pode ser bem difícil. Em Marche, por exemplo, nunca incluíram as diretivas nacionais referentes à pílula RU-486 nos protocolos e normas locais. Além disso, o comprimido que as italianas teoricamente podem tomar desde 2009 se encontra indisponível.

A falta de opções para muitas mulheres da região forçou a Associação Italiana para Educação Demográfica, ou AIED, que oferece vários serviços específicos da saúde feminina, a tomar suas próprias medidas: uma vez por semana, manda os médicos que fazem aborto em Milão e Roma a Ascoli Piceno, na parte centro-leste do país, cujo hospital não conta com ginecologistas dispostos a proceder à prática.

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