DIDA SAMPAIO/ESTADAO
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Aborto por microcefalia motiva racha nas igrejas

Conselho admite a necessidade do debate, mas Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) é contra e fala em ‘eugenia’

Isadora Peron e Luísa Martins, O Estado de S. Paulo

11 Fevereiro 2016 | 03h00

BRASÍLIA - Após encontro com a presidente Dilma Rousseff, líderes religiosos defenderam que é preciso debater com a sociedade a descriminalização do aborto em meio à epidemia de zika. A posição diverge da anunciada semana passada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que afirmou que o aumento de casos de microcefalia no País não justifica a medida.

Segundo integrantes do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (Conic), o assunto não foi tratado na reunião com a presidente e ainda não há consenso. “Precisamos, sim, com urgência tratar da questão”, disse dom Flávio Irala, presidente do Conic e bispo da Igreja Anglicana. “A discussão sobre o aborto está entrando de forma meio enviesada, em função da microcefalia. O fato é que existe uma preocupação com as vidas de todos os envolvidos: mães, bebês e famílias”, afirmou, durante a cerimônia inicial da Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE), que discute o saneamento.

O tema foi destacado como oportuno pelas autoridades, já que a falta de saneamento está ligada a uma maior incidência de doenças - entre elas o zika, que, segundo o governo, tem causado um surto de microcefalia em bebês (3.670 casos suspeitos estão sendo investigados). O vírus transmitido pelo mosquito Aedes aegypti encontra em águas paradas as condições ideais para se proliferar.

Enquanto grupos se organizam para levar a questão do aborto de bebês com microcefalia ao Supremo Tribunal Federal, esperando uma decisão histórica como a de 2012, que tornou possível que mulheres interrompessem as gestações de fetos anencéfalos, nem todas as vertentes cristãs compartilham do posicionamento da CNBB, que foi categórica ao afirmar que a prática é “um total desrespeito ao dom da vida”.

O bispo auxiliar de Brasília e secretário-geral da CNBB, d. Leonardo Steiner, por exemplo, afirmou que “o aborto favorece a eugenia, uma prática para selecionar pessoas perfeitas” e “estão (os grupos pró-legalização) aproveitando a epidemia de zika para reintroduzir o assunto”. Para Joel Zeferino, pastor da Igreja Batista Nazareth, “não dá para ignorar o assunto”. “E é preciso empoderar as mulheres nessa discussão.” 

Durante o encontro no Palácio do Planalto, Dilma pediu ajuda das igrejas de todo o País no combate ao Aedes. Já o ministro das Cidades, Gilberto Kassab, afirmou que o Brasil “infelizmente está aquém” do ideal no quesito saneamento básico. “O mosquito é uma preocupação que vivemos hoje no País e tem forte ligação com a ausência de saneamento, cujos investimentos são, por natureza, mais difíceis”, admitiu. 

Papa. Durante o lançamento da CFE, houve a leitura de uma carta assinada pelo papa Francisco em que ele convida as pessoas “a se mobilizar, a partir dos locais em que vivem”. 

 

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