James Gathany/CDC/AP
James Gathany/CDC/AP

Agência atômica quer transferir técnica contra zika ao Brasil

AIEA quer produzir inseto estéril para reduzir população do 'Aedes'

O Estado de S.Paulo

02 Fevereiro 2016 | 18h54

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) espera transferir ao Brasil sua técnica do inseto estéril (SIT, na sigla em inglês) "o mais rápido possível" para reduzir a população do mosquito Aedes aegypti, que transmite o zika vírus.

Kostas Broutsis, um biólogo molecular na divisão conjunta da AIEA e da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) para técnicas nucleares em alimentos e agricultura, informou nesta terça-feira, 2, que participará em meados de fevereiro de uma reunião do Ministério da Saúde do Brasil.

O objetivo, segundo disse o especialista grego em entrevista coletiva em Viena, será iniciar esta técnica do organismo "o mais rápido possível" no País.

O diretor adjunto do Departamento de Ciência e Aplicações Nucleares da AIEA, Aldo Malavasi, explicou por sua vez que em um país como o Brasil, se começassem a soltar os mosquitos esterilizados "em enormes quantidades", seriam necessários vários meses para reduzir sua população.

"Não temos a arma milagrosa, mas a técnica do SIT é efetiva se for combinada com outros métodos", afirmou Aldo Malavasi.

O Brasil, com experiência na esterilização da mosca-das-frutas, já coopera com a AIEA, razão pela qual será "fácil" adaptá-la para combater outro mosquito.

O SIT consiste em criar insetos machos esterilizados por meio de sua exposição à radiação, para dispersá-los de maneira sistemática na região afetada, onde acasalam com as fêmeas sem gerar descendência.

"Em questão de minutos os insetos são esterilizados. Com a radiação rompemos o material genético para sua reprodução", explicou Broutsis.

Esta técnica já é aplicada há 15 anos em outras pragas, como a da mosca tsé-tsé na África, causadora da doença do sono nos humanos e no gado.

"Precisamos produzir grandes quantidades (de machos) para soltá-los no meio ambiente, depois supervisioná-los e fazer um acompanhamento de sua população, que deveria diminuir", afirmou Malavasi.

Jorge Hendrichs, outro especialista da divisão conjunta da AIEA e da FAO, assegurou que esta técnica tem "um histórico de sucesso".

"É uma espécie de planejamento familiar para insetos, extremamente limpa, que respeita o meio ambiente e é sustentável", assegurou.

Os especialistas da AIEA insistiram nesta terça que não estão falando de erradicar a população de mosquito, mas sua intenção é reduzi-la por meio do SIT junto com outros métodos, como inseticidas e medidas sanitárias.

Os insetos esterilizados são soltos na região desejada uma vez por semana ou a cada duas semanas para suprimir a população de mosquitos que se deseja atacar.

"Se a intenção é tramitar a epidemia, é preciso começar com pequenos povoados e depois ir gradualmente rumo a cidades maiores", detalhou Hendrichs, um médico com longa experiência nesta técnica.

Segundo ele, um milhão de machos podem ser criados em contêineres de um metro cúbico.

"Nos dois últimos anos tivemos bastantes avanços, mas ainda há gargalos, por exemplo na separação de machos e fêmeas", reconheceu Hendrichs.

No caso da mosca-das-frutas - que já foram erradicada dos Estados Unidos - custa US$ 300 produzir um milhão de machos esterilizados.

Apenas na cidade de Los Angeles (Califórnia) são soltas a cada semana 300 milhões de moscas esterilizadas para manter a região livre, o que custa US$ 12 milhões por ano.

Hendrichs explicou que antes a despesa anual era de US$ 70 milhões, o que demonstra que "estas técnicas avançam e os custos diminuem".

Em todo caso, sua aplicação "depende muito do país. Nós lhe oferecemos a técnica, a experiência, não somos proprietários dos projetos", esclareceu Broutsis.

O Aedes aegypti, que transmite, além de zika, outros vírus como a dengue e o chikungunya, se estendeu por todo o continente americano.

O Comitê de Emergência da Organização Mundial da Saúde (OMS) decidiu na segunda que os casos de microcefalia e de desordens neurológicas registrados no Brasil constituem uma emergência sanitária de alcance internacional, mas não o zika vírus por si só, por não ter sido comprovada a relação entre ambos. /EFE

 

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