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Alarde sobre "milagres" de células-tronco preocupa médicos

O alarde em torno das células-tronco como solução para doenças incuráveis preocupa os médicos. Os doentes têm corrido aos consultórios levando recortes de jornal sobre ratos que voltaram a andar ou diabéticos que não precisam mais de insulina. O hematologista Nelson Hamerschlak, do Hospital Albert Einstein, diz que a célula-tronco é abordada pelos meios de comunicação sob todos os aspectos, menos os riscos. "Os pacientes têm a impressão de que somos fadas com varinhas de condão, que aplicamos as células-tronco e saem curados. Não é assim." Para o imunologista Julio Cesar Voltarelli, do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, a expectativa é justificável. "O paciente lê que as células-tronco são milagrosas. Ele cria uma expectativa acima da realidade. E freqüentemente se frustra." A expectativa criou uma enxurrada de e-mails e telefonemas. Voltarelli teve de contratar um funcionário só para responder aos pacientes que entram em contato. "Se respondesse a todos, eu não faria outra coisa." Uma de suas pesquisas precisa de voluntários com diabete tipo 1. Muitos doentes se empolgaram com a possibilidade de melhora, mas boa parte voltou atrás ao saber que poderia morrer durante o tratamento. Um caso extremo ocorreu no final do ano passado, quando um doente de esclerose lateral amiotrófica, um mal degenerativo e incurável, conseguiu nos tribunais o direito de ser cobaia num experimento em São Paulo. Preocupada com a exagerada propaganda e a conseqüente ilusão na população, a Academia Brasileira de Neurologia divulgou um comunicado em que alerta para o fato de que os tratamentos com células-tronco, apesar dos bons resultados isolados, ainda são experimentais. "A divulgação do novo tratamento à população leiga só deve ser feita após a publicação do trabalho completo num periódico médico-científico indexado." Segundo o neurologista Dagoberto Callegaro, do Hospital das Clínicas de São Paulo, são necessários muitos estudos para que os experimentos cheguem aos hospitais como terapia. "No caso da esclerose múltipla, ainda não sabemos se as células-tronco podem formar tumores." Para Oswaldo Keith Okamoto, do Instituto de Ensino e Pesquisa do Albert Einstein, esse tipo de tratamento deverá estar disponível aos doentes, na melhor das hipóteses, em 16 anos. "E não será a cura plena, mas uma melhora na qualidade de vida. Temos de ser realistas. Não podemos iludir os doentes."

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Agencia Estado ,

31 Março 2006 | 12h46

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