Alckmin anuncia início dos testes da 'pílula do câncer' em humanos

Experiência com a fosfoetanolamina terá início na próxima segunda; pesquisa prevê a participação de até mil voluntários

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

21 Julho 2016 | 17h01
Atualizado 21 Julho 2016 | 20h54

SÃO PAULO - Os testes em seres humanos com a fosfoetanolamina sintética, mais conhecida como “pílula do câncer”, terão início na próxima segunda-feira no Instituto do Câncer de São Paulo (Icesp). Os voluntários foram escolhidos entre pacientes do instituto, e a primeira etapa vai analisar a segurança do produto.

O anúncio foi feito nesta quinta-feira, 21, pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), que afirmou que os participantes devem começar a ser avisados hoje. “Estamos com esperança de que (a substância) possa trazer um avanço no tratamento das neoplasias.”

A pesquisa prevê a participação de até 1 mil voluntários e a primeira fase terá dez participantes. Eles vão receber a substância para que seja determinada a segurança da dose que tem sido usada pelos pacientes. Se não tiverem efeitos colaterais, vão continuar fazendo parte do estudo, e uma nova etapa será iniciada, dessa vez com 21 participantes para cada um dos dez tipos de tumor que vão fazer parte da pesquisa, entre eles pulmão, mama, próstata, estômago e fígado. Os participantes serão avaliados e, caso a pílula apresente atividade, serão incluídos mais 20 voluntários em cada grupo.

A eficácia da substância será levada em consideração para a inclusão de mais participantes, que podem chegar a cem para cada tipo de câncer. Os voluntários serão monitorados por uma equipe multidisciplinar do Icesp. Eles vão tomar três comprimidos por dia e, a cada três resultados que apontem a eficácia da pílula nos grupos de voluntários, novos participantes serão incluídos. 

“Pretende-se dar todas as chances de a fosfoetanolamina mostrar eficiência. O estudo teve um desenho científico adequado e será feito com todo o rigor científico”, diz David Uip, secretário estadual da Saúde.

Resultados. Diretor do Icesp, Paulo Hoff diz que, se houver a participação dos 1 mil voluntários, a pesquisa deve durar cerca de dois anos, mas os primeiros resultados já devem ser divulgados neste ano.

“Sobre a toxicidade, teremos resposta em dois meses. Em aproximadamente seis meses, a partir de agora, já saberemos quais grupos serão expandidos com a inclusão de mais pacientes e quais serão fechados por ineficácia da droga.”

Hoff explica que não haverá abertura de inscrições para participação no estudo e que os critérios de seleção foram determinados de acordo com o tipo de câncer, mas que também há aspectos gerais que foram levados em consideração.

“O que há de geral é que não será um tipo de pesquisa com pacientes terminais, será em pacientes que não têm opção de tratamento curativo disponível e que o organismo está em boas condições para responder ao tratamento.” Ele afirma ainda que voluntários que puderem ficar por um período de dois meses sem tratamento e que fique comprovado que o intervalo não trouxe impactos negativos para a sobrevida também estarão entre os participantes. 

Polêmica. A fosfoetanolamina começou a ser distribuída para pacientes com câncer antes de passar por testes em humanos e sem a liberação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ela foi desenvolvida pelo professor aposentado do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) Gilberto Chierice.

Testes in vitro e com cobaias estão sendo feitos pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), mas a eficácia da substância ainda não foi comprovada.

Hoff afirma que os dados são levados em conta, no entanto, existe a necessidade de informar se a substância é eficaz ou não. “Nós achamos que essa informação é importante, mas, no momento em que temos mais de 20 mil pessoas fazendo uso do produto e um grande interesse popular, é muito importante dar uma resposta definitiva que virá de um estudo em seres humanos.”

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