Anunciada criação de Rede de Pesquisa sobre o Câncer

Entre as metas do programa está o mapeamento de genes relacionados ao câncer de mama

Herton Escobar, de O Estado de S. Paulo,

03 Março 2009 | 19h25

Representantes do governo, da academia e do setor privado anunciaram nesta terça-feira, 3, a criação de uma Rede Brasileira de Pesquisa sobre o Câncer, com a participação inicial de 15 instituições. Entre as metas do programa estão o mapeamento de genes relacionados ao câncer de mama e a realização de testes clínicos (em seres humanos) com duas novas terapias, desenvolvidas em parceria por cientistas no Brasil e nos Estados Unidos.   "Além da pesquisa básica, vamos investir na pesquisa aplicada, voltada diretamente para o paciente", disse o presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Marco Antonio Zago. Segundo ele, a rede começou a ser montada no segundo semestre do ano passado, com um edital de R$ 5,38 milhões dos Ministérios da Ciência e Tecnologia (MCT) e da Saúde (MS). Dezenove projetos foram selecionados para os primeiros dois anos do programa.   "Pela primeira vez estamos colocando lado a lado pesquisadores que trabalham na bancada e que trabalham na beira do leito, junto aos pacientes", disse o diretor do Departamento de Ciência e Tecnologia do MS, Luiz Eugenio Portela. "A ideia é que os resultados da pesquisa básica sejam rapidamente testados na pesquisa clínica e incorporados às políticas públicas de saúde."   A lista de participantes da rede inclui o Instituto Butantã, que atuará como instituição-sede, o Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, a Fiocruz, o Instituto Nacional do Câncer (Inca), o Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), a empresa Recepta Biopharma e universidades públicas de São Paulo, Rio, Minas, Brasília e Mato Grosso.   O projeto piloto de pesquisa básica já está em andamento no LNCC, em Petrópolis, onde cientistas estão utilizando uma nova máquina de última geração para sequenciar o genoma completo de um tumor de mama. A sequência final será comparada ao genoma de uma célula sadia da mesma paciente, para identificar alterações genéticas associadas à doença. A expectativa é terminar o sequenciamento até julho. Numa segunda etapa, uma vez que a tecnologia esteja consolidada, mais pacientes e outros tipos de tumores serão incluídos na pesquisa.   "A genética se torna uma ferramenta de diagnóstico", explicou Andrew Simpson, diretor científico do Instituto Ludwig, hoje em Nova York, mas que trabalhou muitos anos no Brasil e foi um dos pioneiros da genômica no País. "Todas as informações sobre como o paciente vai responder a uma terapia está codificada no seu genoma. Queremos extrair essa informação para escolher o melhor tratamento para cada pessoa. Isso é importante não só para o paciente, mas para o País também, já que cada droga custa muito caro."   O Ludwig também é responsável pela descoberta de duas moléculas terapêuticas que serão testadas no País. A primeira (um anticorpo monoclonal) atua como um marcador de alvo, que "gruda" nas células tumorais e as identifica para destruição pelo sistema imunológico do paciente. "Funciona como uma imunoterapia", explica José Fernando Perez, diretor da empresa Recepta Biopharma, que está produzindo e desenvolvendo aplicações clínicas para o anticorpo no Brasil. "No câncer, por alguma razão, o corpo não produz o anticorpo contra aquele tumor. A solução, então, é colocar o anticorpo à mão."   A Recepta já possui um estudo clínico em andamento com o anticorpo para tratamento de câncer de ovário, envolvendo quatro pacientes (a meta é chegar a 53). Um novo estudo deverá ser iniciado dentro da Rede Nacional para outro tipo de tumor, que ainda não foi escolhido.   A segunda molécula (um antígeno) é a cópia de uma proteína característica de tumores que, ao ser injetada no paciente, funciona como uma vacina terapêutica - "que educa o organismo a reconhecer o tumor como um agente infeccioso", explica Simpson. Nos Estados Unidos, a vacina já está no estágio mais avançado de testes clínicos (fase 3), num estudo de três mil pacientes com câncer de pulmão. No Brasil, a molécula será testada, inicialmente, contra o câncer de ovário. "É um tumor muito frequente no País e para o qual não há muitas opções terapêuticas", justificou a pesquisadora Anamaria Camargo, do Instituto Ludwig em São Paulo. "Não queremos só repetir o que já está sendo feito lá fora."   A vacina será aplicada com um adjuvante (substância que potencializa o efeito da molécula), desenvolvido e produzido pelo Butantã. Segundo o diretor do Centro de Biotecnologia do instituto, Paulo Lee Ho, trata-se de um produto "de baixíssimo custo", que já foi testado com vacinas contra a gripe em modelos animais. "Vamos ver agora se vai funcionar em pessoas", disse. Se funcionar de fato, a meta é que a vacina inteira seja produzida no Butantã, para que possa ser incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS). A molécula foi cedida sem custos pelo Ludwig, que é uma instituição filantrópica de pesquisa.   "Teremos uma vacina contra o câncer acessível à população, produzida por uma instituição pública. Isso é muito importante", ressaltou Lee Ho. Segundo ele, é possível iniciar a produção da vacina para testes clínicos em seis meses.

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