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Área de transmissão da dengue mais que quadruplica em 10 anos no Brasil

- Atualizado: 31 Janeiro 2016 | 08h 26

‘Aedes aegypti’ se espalha por quase 7 milhões de km², o que lança um alerta sobre como pode se disseminar o zika daqui para frente

Em uma década, a área de transmissão da dengue no Brasil mais que quadruplicou, saltando de 1,5 milhão de km² para 6,9 milhões de km² – 81% do território nacional. Isso significa que há mosquitos espalhando dengue em todos esses lugares, o que aumenta o alerta sobre como pode se disseminar o zika, vírus que usa o mesmo vetor da dengue. Do Brasil, a nova doença tem potencial para se espalhar pelo mundo.

Pesquisa publicada há uma semana no periódico de saúde The Lancet estimou o potencial de exportação da epidemia a partir do Brasil. Os pesquisadores, liderados por Oliver Brady (leia mais abaixo), da Universidade de Oxford, mapearam os destinos finais de quase 10 milhões de pessoas que saíram do País para o exterior de aeroportos próximos de locais onde o zika foi transmitido: 65% tinham como destino as Américas, 27%, a Europa, e 5%, a Ásia.

Eles então avaliaram nesses destinos onde há áreas propícias à transmissão do zika, considerando a presença de mosquitos do gênero Aedes. Concluíram que cerca de 60% da população de EUA, Itália e Argentina – alguns dos países com maior fluxo de turistas para o Brasil – vivem em áreas onde pode ocorrer transmissão sazonal da doença. E só nos Estados Unidos 22,7 milhões de pessoas residem em áreas passíveis de transmissão de zika o ano inteiro.

“O ministro (da Saúde, Marcelo Castro) não errou ao declarar que o país está perdendo a luta contra o Aedes. Mas talvez tenha sido infeliz. Se dissesse que o mundo inteiro está perdendo a luta, seria mais correto. Porque o problema não é só no Brasil. O Aedes está alcançando distribuição mundial”, afirma o virologista Paolo Zanotto, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. Zanotto coordena uma força-tarefa de vários laboratórios empenhados em desvendar o zika vírus.

Parte dessa expansão, ao menos no Brasil, se dá por motivos já bem conhecidos: aumento da população de mosquitos e avanço da doença por populações que nunca tinham tido contato com a dengue ou que estão se contaminando com sorotipos diferentes. Mas o aquecimento do planeta também pode estar colaborando com isso.

Terra quente. O ano passado foi o mais quente já registrado na história, de acordo com análise das agências americanas espacial (Nasa) e de oceanos e atmosfera (Noaa). Em média, para o mundo inteiro, a temperatura foi 0,9°C mais alta que a média registrada no século 20. O Brasil, somente em dezembro, chegou a ter em algumas regiões temperaturas máximas de 3°C a 5°C mais altas que a média para o mês, segundo o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC).

O clima mais quente segue tendência observada nos últimos anos e causada pelas mudanças climáticas, mas em 2015 foi particularmente intensificado pela presença de forte El Niño. Estudos que relacionem o aquecimento global a uma maior dispersão de doenças transmitidas por vetores ainda são pouco conclusivos, mas a teoria é defendida por vários estudiosos do assunto. Na quinta-feira, a própria Organização Mundial da Saúde (OMS), por meio de sua diretora-geral, Margaret Chan, disse esperar que o El Niño “incremente a população de mosquitos em muitas áreas (do mundo).”

“O que temos notado é que a dengue tem ido para áreas que eram mais frias, como o Sul do País, onde as temperaturas têm subido. Lá o mosquito tem vida mais curta, mas já temos visto surtos”, diz Christovam Barcellos, da Fiocruz, que fez o mapeamento da expansão da dengue entre 2001 a 2013 (último ano em que estão disponíveis todos os dados por cidades).

“É uma questão de bom senso. Temperaturas mais altas e chuva são condições apropriadas para o mosquito se estabelecer”, explica a bióloga Margareth Capurro, também do ICB da USP, que tenta criar mosquitos transgênicos para combater a disseminação da doença.

E se para o mosquito a situação quente é boa, para o vírus também. “Quando aumenta a temperatura externa, o período de incubação do vírus dentro do mosquito fica bem mais rápido”, explica Zanotto. 

Em temperaturas ambientes em torno de 25°C, o período que leva entre o mosquito picar uma pessoa com o vírus e poder transmiti-lo para outra é de cerca de 15 dias. “Mas quando a temperatura é de 30°C, esse período de incubação vai para 6 dias. Fica muito mais rápida a transmissão da doença”, diz. “Sem contar que com calor o mosquito fica muito mais ativo, se locomove mais rápido, aumentando sua área de transmissão”, complementa.

Novos vírus. O pesquisador alerta ainda que a infestação elevada de mosquitos é crucial para estabelecer a infecção por outros arbovírus. Além de dengue, zika e chikungunya, diz, muitos outros vírus estão na fila e não dá para saber qual será o próximo a vir. “Acredita-se que existe febre amarela (também transmitida pelo Aedes) em área urbanas na África (no Brasil é só em florestal) porque lá a infestação é mais elevada. O medo é que o aquecimento traga outros arbovírus para as áreas urbanas.”

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