MASAO GOTO FILHO / ESTADAO
MASAO GOTO FILHO / ESTADAO

As escolhas diferentes de 4 mulheres sobre o aborto

Aline, Flávia, Ana e a professora R. são mulheres que tiveram de decidir se iam ou não levar adiante uma gravidez. O ‘Estado’ conta suas histórias na semana em que o Supremo Tribunal Federal tomou o primeiro passo que pode liberar o aborto até o 3º mês de gestação

Fabiana Cambricoli, Paula Felix e Mônica Bernardess, O Estado de S. Paulo

04 Dezembro 2016 | 05h00

Aline (nome fictício), de 33 anos, conta porque decidiu duas vezes pelo aborto. Ela fala sobre a falta de apoio mesmo depois de ter abortado. Leia o relato:

"Tive dois procedimentos desse. Tinha acabado de me mudar para São Paulo, sou do interior e me mudei para estudar. Tinha um relacionamento antes, em Campinas, que tinha terminado, e foi desse relacionamento que eu engravidei pela primeira vez. Eu estava com 21 anos. Quando descobri, já tinha me mudado e estava com mais de dois meses de gravidez.

Fui a um ginecologista e, só de olhar e me examinar, ele falou que eu estava grávida. Naquele momento, já sabia que não teria, porque sabia que a única chance de eu ter era voltando para a casa dos meus pais ou me relacionando com essa pessoa que não queria mais. Estava com uma vida instável aqui, mas era uma vida que eu queria começar.

Esse médico disse: “Tudo bem, fica tranquila, porque toda mulher conhece outra que já fez um aborto.” Só que tinha acabado de me mudar e isso significava que eu não tinha essa mulher do meu lado. Ao mesmo tempo que isso me acalmou, eu entrei em desespero.

Comecei a agendar consultas em vários médicos ginecologistas e falava que queria fazer, nessas consultas. Devo ter agendado com cinco ou seis e, nessas consultas, eles tentaram me desencorajar, falando que filho é uma bênção, nunca é um problema. Isso era a última coisa que eu queria ouvir naquele momento.

Uma menina do cursinho me indicou uma clínica. Custava um dinheiro que não tinha e fiz um empréstimo na época. Fui sozinha, não falei para ninguém, não tinha com quem compartilhar.

O procedimento foi tranquilo, voltei de metrô. Mas foi difícil, é uma coisa que trabalho até hoje na terapia e, inclusive, é um assunto que voltou muito forte neste ano, porque apoiei cinco mulheres que me procuraram a fazer isso. Nenhuma mulher vai passar pelo que eu passei, sozinha.

Na segunda vez, eu tinha 24 anos, foi de uma pessoa com quem me relacionava, mas não era namorado. Ele pagou, me acompanhou e a gente é amigo até hoje. Não foi com o mesmo médico e esse procedimento foi mal feito. Eu senti muita dor no processo. Estava com seis semanas.

A gente faz escolhas de acordo com o contexto que a gente está. Hoje, se acontecesse, não faria isso, porque tenho mais estrutura, tenho outra cabeça, mas, naquele momento, não tinha condições para tomar outra decisão, mas como o processo é conduzido, o fato de ser criminalizado, de ter de manter em segredo, deixa uma carga sombria no processo. A minha família não sabe.

A gente está em um momento em que ninguém aguenta mais essa coisa hipócrita. Tem de sair desse lugar sombrio como se fossem casos isolados, coisa de adolescente, é urgente quebrar esses estigmas.

Passei muito tempo sem encostar nesse assunto. Recentemente, comecei a fazer um trabalho de autoconhecimento, de terapia, e a aceitar o que aconteceu, a vergonha por saber que minha família jamais iria aceitar. A cultura machista faz com que o processo seja traumático e não só triste, como poderia ser. Se eu não tivesse buscado os recursos, poderia ficar como um assunto desses que ficam na gaveta.

Estou trabalhando na perspectiva do trauma e no que vai acontecer daqui para frente. Ao mesmo tempo, estou começando a aceitar a possibilidade de ser mãe. Penso que nos próximos anos, em até cinco anos, quero ter um filho. Sinto que estou começando a olhar para isso.”

Mais conteúdo sobre:
Aline São Paulo Campinas

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.