Luciano Minari
Luciano Minari

‘Até a coleta dos óvulos, foi quase um ano de preparativos’

Flexibilização facilita procedimentos por casais homossexuais; paulista relata caso em que problema de saúde levou à barriga de aluguel

Lígia Formenti e Paula Felix, O Estado de S.Paulo

10 Novembro 2017 | 03h00

BRASÍLIA E SÃO PAULO - O melhor presente de casamento para Vanessa Laís Alves e Thaísa Saad Vitor Alves veio dois meses depois da formalização da união. Em abril, ambas confirmaram a gravidez de Laila. “Foi quase um ano de preparativos até que fizéssemos a coleta dos óvulos e o embrião fosse implantado em Thaísa. Mas conseguimos engravidar já na primeira tentativa”, conta a empresária Vanessa.

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O casal recebeu doação de espermatozoides. Foram fecundados tanto óvulos de Thaísa quanto de Vanessa. “Somos todas mães. O importante é que Laila chegará em janeiro com saúde”, diz Vanessa. 

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José Hiran da Silva Gallo, do Conselho Federal de Medicina, afirma que a gestação compartilhada, regulamentada em 2015 e mais clara agora, era reivindicação antiga de casais homossexuais. “Há estudos indicando que famílias em que bebês nasceram a partir dessa técnica têm laços mais fortes”, disse.

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Em São Paulo, foi com a ajuda de uma tia que uma arquiteta de 36 anos, que preferiu não se identificar, conseguiu realizar o sonho de ser mãe. Ela estava casada havia cinco anos e queria ter um bebê, mas foi diagnosticada com miomas no útero em 2012 e precisou fazer uma cirurgia.

"Tive uma intercorrência e precisei tirar o útero. Uma tia me procurou se prontificando a ser a barriga solidária."

Ela conta que, no início, não imaginou que o gesto se tornaria realidade. Em 2014, toda a parte burocrática foi resolvida e, após acompanhamento psicológico e o tratamento, a tia dela, que já tinha dois filhos, ficou grávida de um menino.

"Eu costumo brincar que era o meu bolo assando no forninho dela." A arquiteta diz que acompanhou a gestação e se preparou para amamentar o bebê. "Fiz estimulação e consegui amamentar o meu filho até os cinco meses."

A ampliação proposta pelo CFM é benéfica, segundo ela. "É mais um alerta de que existe a possibilidade de fazer tudo legalmente amparado pelo conselho."

Segundo Edilberto de Araújo Filho, especialista em Reprodução Humana Assistida e diretor do Centro de Reprodução Humana de Rio Preto, a determinação amplia o leque de opções para gerar o bebê, algo positivo para os médicos e pacientes.

"O CFM está entendendo melhor as necessidades das mulheres que não podem gerar um filho. Isso amplia o número de opções de pessoas do seio familiar que gostam dessa mulher."

Sem saída

Mas ainda há quem tenha de sair do País para buscar a prática. Após 14 anos de espera, a auxiliar administrativa Rosana Minari, de 46 anos, conseguiu ter a filha Maria Eduarda, que está com 2 meses, por meio de uma barriga de aluguel na Ucrânia. Ela conta que está na fila de adoção e tentou engravidar com fertilização cinco vezes. “Engravidei em três fertilizações, mas sempre perdia com quatro, cinco semanas (de gestação). Tentei fazer a barriga solidária com a minha cunhada, mas quando recebi um não tive um bloqueio, não tentei com mais ninguém da família.”

Rosana utilizou o serviço da empresa especializada em barriga de aluguel Tammuz Family e diz que pensa em ter o segundo filho com o mesmo procedimento. “A gente nunca desistiu de ter a nossa família. Tem gente que já desiste, mas não foi o nosso caso.” 

 

 

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