Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Aumento de transtornos mentais entre jovens preocupa universidades

Casos frequentes de alunos com ansiedade e depressão têm levado instituições públicas a criar núcleos de prevenção e atendimento psicológico; estudantes também organizam grupos de apoio nas redes sociais para compartilhar relatos e oferecer ajuda

Fabiana Cambricoli e Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

16 Setembro 2017 | 19h00

A euforia sentida por Evair Canella, de 25 anos, ao entrar em Medicina na Universidade de São Paulo (USP) se transformou em angústia e tristeza. Ao encarar a pressão por boas notas, a extenuante carga horária de aulas, as dificuldades financeiras para se manter no curso e os comentários preconceituosos por ser gay, ele foi definhando. “Tinha muitas responsabilidades, com muitas horas de estudo.” Em maio, no 4.º ano do curso, foi internado no Instituto de Psiquiatria da USP, com depressão grave. Ficou lá durante um mês e segue com antidepressivos e acompanhamento psicológico. 

Situação parecida viveu a estudante de Engenharia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Bárbara (nome fictício), de 21 anos, que trancou a matrícula após desenvolver um quadro de ansiedade e depressão que a levou à automutilação e a uma tentativa de suicídio no fim de 2016. Ela passou por tratamento, mudou de cidade e de faculdade, e retomou em agosto os estudos.

Relatos como esses se tornaram cada vez mais frequentes e mobilizam universidades e movimentos estudantis a estruturar grupos de prevenção e combate aos transtornos mentais. As ações, para oferecer ajuda ou prevenir problemas como depressão e suicídio, incluem a criação de núcleos de atendimento mental, palestras e até o acompanhamento de páginas dos alunos nas redes sociais.

Dados obtidos pelo Estado por meio da Lei de Acesso à Informação dão uma ideia da gravidade do problema. Apenas na UFSCar, foram 22 tentativas de suicídio nos últimos cinco anos. Nas universidades federais de São Paulo (Unifesp) e do ABC (UFABC), cinco estudantes concretizaram o ato no mesmo período. Mapeamento feito pela UFABC mostrou que 11% de seus alunos que trancaram a matrícula em 2016 o fizeram por problemas psicológicos.

A falta de compreensão de parte dos docentes é uma das principais queixas. “Alguns parecem ter orgulho em pressionar, reprovar”, conta Bárbara. 

O psicólogo André Luís Masieiro, do Departamento de Atenção à Saúde da UFSCar, diz que a busca por auxílio psicológico está frequentemente ligada à exigência constante que se faz dos jovens. “Sem dúvidas há um aumento do fenômeno da depressão em universitários. A ameaça do desemprego e do fracasso profissional são fatores desencadeantes de depressão.”

A UFSCar informou ainda que, entre outras iniciativas, distribuiu cartilha de práticas de acolhimento em saúde mental para docentes e funcionários que recebem alunos em situação de sofrimento psicológico.

Aproximação

Para combater o problema, instituições tentam, aos poucos, se aproximar dos alunos. Na Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu, são estratégias a indicação de professor mentor para quem teve mudança repentina no rendimento acadêmico e a participação de grupos estudantis nas redes sociais.

Na Federal de Minas Gerais (UFMG), foram criados neste ano dois núcleos de saúde mental, após dois suicídios entre alunos. Até então, só a Medicina tinha atendimento do tipo. “Se um fato já aconteceu, é sinal de que falhamos no processo”, diz a vice-reitora Sandra Almeida.

Já a Federal da Bahia (UFBA) criou, também em 2017, programa para prevenir e ajudar alunos, principalmente os de baixa renda. “Os cotistas sofreram rejeição, até mesmo de alguns professores”, diz o psicanalista e assessor da UFBA Marcelo Veras.

Mobilização

Alunos também têm criado grupos para auxiliar colegas e sensibilizar as instituições. A principal iniciativa do tipo foi a Frente Universitária de Saúde Mental, criada em abril por alunos de instituições públicas e privadas de São Paulo.

O movimento surgiu após tentativas de suicídio na Medicina da USP. “Eram muitos alunos com esgotamento, sem acompanhamento adequado, e percebemos que isso não era particularidade da Medicina”, conta a aluna do curso Karen Maria Terra, de 23 anos, integrante da Frente. Eles organizaram, em junho, uma semana de palestras para abordar questões sobre a saúde mental. A página do grupo no Facebook tem 27 mil seguidores.

"Eu vejo meus colegas surtando, e a gente fala pouco sobre isso. A criação da Frente nos mostra que não estamos sozinhos”, comenta Anna Campos Teotonio, aluna de Medicina da Santa Casa.

Alunos da Veterinária da USP também criaram uma página no Facebook para desabafar. “Com o tempo, começaram a aparecer relatos de problemas de saúde e, este ano, o que mais tem é depressão e ansiedade”, diz Bianca Cestaro, de 30 anos.  (Colaborou Isabela Palhares)

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‘Eu deixei de ter prazer em ir às aulas’, diz aluna de Medicina

Olga Skaf, de 23 anos, estudante de Medicina, conta, em depoimento ao Estado como desenvolveu depressão após entrar na faculdade

Fabiana Cambricoli e Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

16 Setembro 2017 | 19h00

“Antes de entrar na faculdade, nunca tinha tido sintomas de depressão. No fim do segundo ano da graduação, em 2014, comecei a me sentir mal naquele ambiente. Fui procurar ajuda quando soube que um colega da minha sala tinha se suicidado e que aquilo estava perto de mim. 

Em toda a minha vida, sempre fui uma aluna dedicada, mas, no terceiro ano do curso, eu deixei de ter prazer em ir às aulas, em fazer esporte, não conseguia sair da cama, comecei a perder os dias de prova. Sentia que minha vida era insignificante. A convivência com pessoas muito doentes nos hospitais, a pressão para ir bem na faculdade e a competição entre os colegas me deixavam triste.

Em 2015, já com depressão, comecei a cortar meus braços, meus pés. No meio do ano, tomei uma overdose de remédios. Fui socorrida e, depois de passar por isso, resolvi que pararia a faculdade para cuidar da minha saúde mental.

Procurei psiquiatras, passei um tempo viajando, comecei terapia, adotei um cachorro, voltei a fazer trabalho voluntário. Neste ano, retornei para a faculdade sem nunca esquecer que eu tenho de estar sempre alerta. Tristezas, frustrações e pensamentos ruins vão aparecer, mas hoje percebo que não tenho que me esconder ou me mutilar. Aprendi formas de lidar e procurar ajuda.”

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Nas federais, 3 estudantes em cada 10 já procuraram psicólogo

Estudo aponta que as mulheres procuraram mais o serviço do que os homens – 33,8% disseram ter buscado atendimento psicológico, ante 26,69% no público masculino; 8,9% já tomaram alguma medicação psiquiátrica

Luiz Fernando Toledo e Fabiana Cambricoli, O Estado de S. Paulo

16 Setembro 2017 | 19h00

Três em cada dez estudantes de universidades federais brasileiras (30,45%) já buscaram atendimento psicológico ao menos uma vez na vida. Desses, 6,86% frequentaram o serviço nos últimos 12 meses e 4,73% estão sob acompanhamento. 

Os dados são de um amplo levantamento divulgado em 2016 pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), feito por meio de entrevistas e questionários com 939,6 mil alunos de todo o País.

O estudo aponta que as mulheres procuraram mais o serviço do que os homens – 33,8% disseram ter buscado atendimento psicológico, ante 26,69% no público masculino. O levantamento apontou ainda que 8,9% já tomaram alguma medicação psiquiátrica. 

A busca por tratamento pode evitar que o aluno abandone o curso. É o que aponta outro estudo, também de 2016, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que analisou o perfil de 1.237 pacientes que passaram pelo atendimento psicológico e psiquiátrico para alunos da instituição, o Sappe. 

“Já sabíamos que transtornos mentais têm impacto negativo no desempenho acadêmico. Mas agora identificamos que, embora o aluno que busca ajuda demore mais para concluir o curso, as chances de evasão são menores até mesmo em relação à população em geral”, diz a coordenadora do serviço, Tania Maron, que também foi co-orientadora do estudo.

A taxa de conclusão de curso foi maior entre os atendidos (67,3%, ante 59,9%), com menor evasão. Já o coeficiente médio de rendimento (CR) foi considerado inferior. 

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Fabiana Cambricoli e Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

16 Setembro 2017 | 19h00

Embora estejam aumentando seus programas de auxílio psicológico, as universidades ainda são alvo de críticas dos estudantes quanto à postura no acolhimento de alunos com problemas mentais. De acordo com universitários ouvidos pelo Estado, alguns professores e diretores de unidades são insensíveis ou inflexíveis, outros desqualificam e minimizam os quadros do tipo.

A estudante de Medicina da USP Karen Maria Terra, de 23 anos, relata que houve falta de acolhimento por parte de uma professora. No semestre passado, com crises de ansiedade e início de depressão, ela teve de faltar a algumas aulas. “No segundo semestre, comentei com ela que precisaria de ajuda porque não tinha compreendido direito alguns conteúdos, mas, na primeira vez que disse que não estava entendendo um caso, ela me disse para ir pesquisar em um livro porque ela não tinha cara de dicionário”, conta ela. 

“Já ouvi de um professor que, se não estivéssemos entendendo, era melhor prestar o vestibular de novo”, conta a aluna da Escola Politécnica da USP Beatriz Alves Bessa, de 21 anos.

A situação também ocorre em universidades particulares. Logo depois de começar um tratamento para a síndrome de borderline, transtorno caracterizado por mudanças súbitas de humor, a estudante de Veterinária da Universidade de Sorocaba (Uniso) Carolina (nome fictício), de 25 anos, procurou a coordenação do curso para pedir ajuda. Crises de choro e mal-estar certamente afetariam seu desempenho. “A sensação era de um furacão que passava pela minha cabeça.” A promessa foi de acolhimento, mas, na prática, uma série de problemas a levaram a trancar o curso.

O primeiro episódio foi no primeiro semestre do ano passado. A estudante perdeu uma prova depois de ter crise de pânico e, para não zerar, pediu à psicóloga que lhe desse um atestado médico para que pudesse fazer a avaliação em outro dia. O pedido foi negado, e ela reprovou na disciplina. 

“Disseram que um psicólogo não pode dar atestado. Tentei até recorrer ao reitor, mas não adiantou.” Pouco tempo depois a aluna levou uma carta de sua psiquiatra, na tentativa de abonar faltas que teve por causa das crises, mas a justificativa não foi aceita. Foi aí que decidiu trancar o semestre. Só retomou os estudos agora, em 2017. 

Ações

Professor da Medicina da USP e supervisor do serviço de apoio aos estudantes do curso, Francisco Lotufo Neto diz que a faculdade tem dois psiquiatras e dois psicólogos disponíveis para atender os alunos e a unidade tenta sensibilizar todos os membros da comunidade acadêmica para o tema. “Alguns professores privilegiam o desempenho acadêmico. Discussões sobre estigma em relação ao adoecer mental e visitas aos departamentos estão sendo realizadas.”

Diretor da Escola Politécnica da USP, José Roberto Castilho Piqueira afirma que a instituição encaminha os estudantes que precisam de ajuda para os institutos de psicologia e psiquiatria da universidade e o tema é abordado em palestras para estudantes. “Temos um grupo de apoio aos alunos e eventuais comportamentos inadequados de professores devem ser trazidos à diretoria. Se os alunos não relatam, não temos como tomar providências”, afirma Piqueira.

A Pró-Reitoria de Graduação da USP informou que a saúde de seus estudantes é “tema prioritário” e está desenvolvendo um programa-piloto de acolhimento ao estudante, a ser implementado no próximo mês. A Uniso informou que dispõe de clínica de psicologia para alunos e dezenas de atestados são rigorosamente atendidos, seguindo a legislação, que prevê apresentação de atestado de profissional médico.

Preste atenção: O que observar nos alunos

1) Drogas. O uso abusivo de álcool e drogas pode ser gatilho ou fator de agravamento de transtornos psiquiátricos, segundo Antônio Geraldo da Silva, diretor da Associação Brasileira de Psiquiatria. “O cérebro está em formação até os 23, 25 anos. Com o consumo de drogas, o jovem fica mais suscetível a doenças mentais”, explica.

2) Sinais. Mudanças de comportamento são os principais sinais que os jovens dão quando desenvolvem problemas psiquiátricos. “Pode ser um jovem muito sociável que, de repente, se isola. Mas também há casos de jovens muito retraídos que passam a ficar expansivos”, diz José Manoel Bertolote, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

3) Ajuda. O especialista afirma que não se deve desqualificar o sofrimento de um paciente com problemas psicológicos. “O quadro não deve ser tratado como besteira ou frescura. Comentários do tipo pioram as coisas. Deve ser oferecida ajuda”, diz Bertolote.

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