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Saúde

Brasil

Brasil foi centro da reunião, que mostrou OMS sob pressão

Situação no País atraiu a atenção de todos e determinou a recomendação global pela Organização Mundial de Saúde

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Jamil Chade

02 Fevereiro 2016 | 03h00

No epicentro da crise, o Brasil. Em quatro horas de debate, nesta segunda-feira, 1º, entre cientistas e membros de diferentes governos, foi a situação no País que atraiu a atenção de todos e determinou a recomendação global. O Estado foi o único meio de comunicação que teve acesso a trechos do debate, cercado por incógnitas e temores de especialistas de serem acusados no futuro de não terem agido. Nas conversas, a proliferação dos casos pelo País, a necessidade de uma resposta e um alerta geral para mobilizar a população foram decisivos no anúncio feito pela OMS. 

Em um primeiro momento, governos de todo o mundo foram chamados a participar da teleconferência para responder às perguntas dos cientistas. No centro do debate e da proliferação dos casos, o Brasil foi o grande alvo dos questionamentos entre 18 especialistas de Reino Unido, Índia, EUA, Gana, Paquistão e Cingapura. 

Um dos pontos centrais levantados pelos cientistas e representantes de governos se referia à relação entre a microcefalia e o zika vírus. Alguns cientistas queriam saber se existiam sinais de contágio por relações sexuais, enquanto outros questionavam sobre o número de casos realmente registrados no Brasil. Em um momento, o coordenador do grupo de emergências, o médico inglês da London School of Hygiene and Tropical Medicine, David Heymann, ironizou: “O Brasil parece ser mesmo o mais popular dessa reunião.” Em outro trecho, os cientistas e responsáveis internacionais mostraram preocupação quanto à proliferação da doença durante a Olimpíada. “O que é que está sendo feito no Brasil?” Numa resposta, o representante do governo que falava de Brasília garantiu que as autoridades “enviaram todos os dados ao Comitê Olímpico Internacional”. 

Duas horas depois, os governos foram desconectados da reunião virtual e apenas os cientistas puderam participar, justamente para garantir a independência nas decisões tomadas. Ao avaliar as medidas sobre a mesa, os cientistas não escondiam a hesitação diante da falta de comprovações da relação do vírus com microcefalia. “Se não fizermos nada e, em alguns meses descobrimos que o zika causa a microcefalia, vão nos acusar de negligência”, disse um membro da alta direção da entidade.

O Estado apurou que já existia pressão sobre a OMS para que ela convocasse a reunião em dezembro. Mas a entidade entendeu que não teria elementos científicos. Agora, escolheu um caminho diplomático. A OMS também sofria pressões internas. Departamentos como o da malária e o da dengue, não declaradas “emergências internacionais”, alertavam a cúpula que iriam oficialmente protestar se o zika, sem provas, fosse declarado emergência.

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