Beber e fumar mais cedo

Risco de criança abusar de substâncias aumenta quando um dos pais não está presente

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2016 | 04h00

Separação não é difícil apenas para o casal. Novo estudo divulgado na última semana aponta que crescer em uma família em que um dos pais não está presente aumenta o risco de as crianças fumarem e beberem antes dos 11 anos.

Pesquisadores da Universidade College London (UCL), do Reino Unido, analisaram dados de 11 mil crianças que nasceram entre setembro de 2000 e janeiro de 2002. Elas foram avaliadas aos 9 meses e, depois, aos 3, 5, 7 e 11 anos. Uma em cada quatro delas enfrentou a ausência de um dos pais (por morte ou separação) antes dos 7 anos.

As crianças que estavam vivendo com apenas um dos pais apresentaram um risco três vezes maior de fumar antes de entrar na adolescência. Já a chance de começar a beber foi quase 50% maior do que aquelas que viviam com pai e mãe juntos. O trabalho foi publicado no periódico Archives of Disease in Childhood e divulgado pelo jornal britânico Daily Mail e pelo Estado.

Trabalhos anteriores já apontavam maior probabilidade de uso de álcool e cigarro nos adolescentes que são filhos de pais separados ou ausentes. Mas esse é o primeiro a mostrar que esse contato pode acontecer ainda na infância.

A separação, morte ou distância de um dos pais acrescentaria um estresse adicional na vida dessas crianças, o que pode fazer com que elas busquem alternativas menos saudáveis para lidar com a pressão de um ambiente em mudança. Álcool, cigarro e outras drogas entrariam nesse lugar na vida dos jovens. Além disso, a ausência de limites e a falta de supervisão dos pais podem facilitar o contato com essas substâncias.

É importante lembrar que, quanto mais precoce é a experiência com nicotina ou álcool, maiores as chances de o jovem vir a desenvolver padrões mais complicados de consumo, como o abuso e a dependência.

Para os especialistas ingleses, essa exposição precoce e o uso crônico dessas substâncias poderiam fazer com que essas crianças enfrentassem mais problemas cardiovasculares e câncer de pulmão na vida adulta. 

Um fenômeno social. Hoje, as estatísticas indicam que no Brasil de 20% a 25% dos alunos em salas de aula vêm de famílias em que os pais estão separados, independentemente da classe social. Uma em cada quatro relações estáveis acaba antes dos 10 anos por aqui. Nos Estados Unidos, as taxas são ainda maiores, com cerca de um em cada três casamentos acabando antes de uma década de convivência. 

Isso sem contar as mortes, fenômeno que alcança índices ainda mais elevados na periferia das grandes cidades, onde a gravidez precoce das adolescentes e a violência contra os pais são mais frequentes. São muitas crianças pequenas crescendo em famílias em que, principalmente o pai, não está vivendo mais em casa ou já morreu.

E o problema não fica apenas na questão do álcool e do cigarro. Um levantamento divulgado no início de julho pelo Ministério Público de São Paulo mostrou um dado assustador: dois terços dos jovens infratores da capital paulista não vivem com o pai dentro de casa. Além disso, 42% deles não tinham nenhuma forma de contato com ele e 37% têm parentes com antecedentes criminais. Os dados revelam a força que a ausência paterna pode ter sobre o futuro dos filhos. 

Essa distância parece, de alguma forma, tornar essas crianças mais vulneráveis a diversas situações de risco. Assim, os trabalhos sugerem que esses jovens fazem parte de um grupo que merece um olhar mais atento por parte da família e dos educadores. Intervenções sociais e suporte emocional podem fazer toda a diferença, reduzindo a chance de eles se engajarem em comportamentos que coloquem sua vida em perigo.

JAIRO BOUER É PSIQUIATRA

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