Brasileiros estão vivendo mais e pior

População idosa cresceu 112% em 20 anos: hospitais estão se preparando o envelhecimento do País

Barbara Bretanha, ESPECIAL PARA O ESTADO

18 Julho 2014 | 12h09

SÃO PAULO - O Brasil está envelhecendo e os hospitais já começaram a se preparar para as novas demandas que a população maior de idosos irá requerer. Entre 1992 e 2012, a população acima de 60 anos passou de 11,4 milhões em 1992 para 24,8 milhões em 2012, um crescimento de 117%.

A OMS estima que, em 2025, o número suba para 16,2% tornando o Brasil o sexto país com maior número de idosos. Serão aproximadamente 34,5 milhões de idosos. E, em 2050 o país terá mais idosos que crianças menores de 15 anos. Investimentos em pesquisas e tecnologias, alterações infraestruturais e a valorização de profissionais especializados no atendimento de pacientes acima dos 60 anos fazem parte das medidas adotadas pelos estabelecimentos em antecipação disso.

No Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, a capacitação para lidar com pacientes mais velhos faz parte da formação continuada dos profissionais. O superintendente médico do hospital, Mauro Medeiros Borges, afirma que, para os pacientes acima de 85 anos, ainda existe um suporte. Além dos especialistas de plantão, cinco equipes de três geriatras cada integram o quadro de funcionários do centro. “Hoje mais da metade dos nossos pacientes já tem mais de 60 anos”, diz Borges.

Já o Hospital Sírio Libanês, está estudando a ideia de criar um pronto-socorro exclusivo para idosos. De acordo com o gerente do pronto atendimento Fernando Ganem a procura pelo pronto-atendimento cresce 10 a 15% todos os anos e o maior aumento é no número de idosos. Outra descoberta foi que o número de pacientes acima de 90 anos também tinha aumentado. De acordo com Ganem, esses pacientes requerem um fluxo de atendimento diferenciado. “Estamos dando continuidade a essa pesquisa para ver quais são os impactos e as demandas”, afirma.

Em contrapartida, o Ministério da Saúde investe aproximadamente R$10 milhões por ano em ações estratégicas para a saúde do idoso, como equipes que prestam atendimento domiciliar, visando diminuir internações desnecessárias. Presentes em 26 estados e 360 municípios, são 1.378 equipes cerca de 70% das pessoas atendidas pelas 1.378 equipes habilitadas são idosos e 31% tem mais de 80 anos. O Ministério também tem um programa específico para prevenção de doenças crônicas, além do Farmácia Popular que oferece medicamentos gratuitos e subsídio para fraldas geriátricas.

Apesar disso, a professora do curso de Gerontologia da USP Marisa Accioly Domingues afirma que ainda há lacunas. “O Brasil aindprecisa melhorar muito essa questão de equipamento para atender idosos com dependência, vulnerabilidade.

Precisamos de instituições de longa permanência, com profissionais capacitados - temos pouquíssimos Centros Dia, não deve chegar a 100 no país”, diz. “Tem que ter uma mudança na lógica de assistência para uma de atenção de longo tempo.” 

Segundo o pesquisador do Departamento de Demografia da UFMG Bernardo Lanza, a expectativa de vida também tende a crescer, devendo chegar a 80 anos em 2041. Mas uma pesquisa da USP mostra, por exemplo, que os idosos do município de São Paulo estão vivendo mais, mas em piores condições de saúde: se a hipertensão e a diabetes fossem controladas, os homens ganhariam até seis anos de vida livre de incapacidades.

“Envelhecer doente não é uma boa nem para o indivíduo nem para quem paga. Tem um custo duplo: não só a pessoa doente tem cuidado caro, mas deixa de contribuir integralmente para a economia e sociedade”, afirma o presidente do Centro Internacional da Longevidade Alexandre Kalache. “Quando pensa em ter 65 anos já estamos falando da população de 30. É urgente que a gente se prepare. Ao contrário do Canadá, que está envelhecendo depois de ter se tornado rico, o Brasil tem problemas infraestruturais e de pobreza consideráveis”,diz Kalache. Segundo Lanza o número de beneficiários do sistema previdenciário logo vai ser superior ao de contribuintes. De acordo com o FMI, a taxa de gastos públicos destinados para aposentadorias chegar a 16,8% até 2050, mais que o dobro da atual. 

“O potencial de trabalhar por mais tempo que reduziria um pouco desse peso”, diz Lanza, que afirma que é necessário garantir a saúde da população idosa para isso. Um dos maiores desafios para garantir a participação e a saúde do idoso é a discriminação, afirma Kalache. O currículo dos estudantes de Medicina precisa ser mais voltado para o idoso que será o paciente majoritário em breve. Além disso, é necessário trabalhar campanhas de conscientização da sociedade, diz o presidente.

“Em termos de expectativa de vida, uma pessoa de 71 anos hoje é igual uma pessoa de 60 anos 50. Não dá para pensar até 60 é idade de corte e depois não dá para trabalhar, as pessoas podem trabalhar mais tempo”, afirma Lanza. 

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