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Cesárea freia queda de mortalidade materna, diz especialista

Para Cesar Victora, melhorias na atenção a saúde da gestante têm efeitos anulados por consequências do aumento desse tipo de parto

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Lígia Formenti,
Enviada especial

30 Junho 2014 | 19h05

JOHANNESBURGO - Um dos autores do relatório lançado nesta segunda-feira, 30, em Johannesburgo durante o Fórum da Parceria para Saúde Materna, de Recém-Nascidos e Crianças (PMNC), o professor da Universidade Federal de Pelotas, Cesar Victora, atribui a dificuldade de reduzir as taxas de mortalidade materna no Brasil ao grande número de cesáreas. “Esse é, de longe, o principal problema”, afirma. Nos últimos 13 anos, o índice de mortes relacionadas à gestação e ao parto apresentou queda média anual de 1,7%. A quarta menor no ranking preparado pelo relatório da PMNC.

Victora considera que eventuais melhorias na área de atenção a saúde da gestante conquistadas no País tenham seus efeitos anulados pelas consequências do aumento desse tipo de parto. Quando cesáreas são feitas sem indicação necessária, conta, há um aumento de risco de mortalidade materna de 20%.

“Em alguns locais, os índices de cesárea registrados são caso para Ministério Público, chegam a 90%”, adverte. Como exemplo, ele cita os municípios paulistas de Barretos e São José dos Campos. O pesquisador conta que as cesáreas respondem atualmente por 56% dos partos realizados no País. “É um abuso que não dá sinais de que será interrompido, pelo contrário, todos os anos há um aumento médio de 1,2% nesses indicadores”, completa.

Para ele, o problema é provocado pela falsa ideia difundida por parte da classe médica de que a cesárea é mais segura que o parto normal. “É uma ideia errada.”

Além de aumentar as taxas de mortalidade materna, o abuso de cesáreas traz outro reflexo negativo: o aumento de bebês prematuros. “Chegamos a marca de 12%, é uma das maiores do mundo”, conta. Victora está convicto de que um dos fatores que influenciam essa marca é o medo de a gestante entrar em trabalho de parto e, com isso, a cesárea ter de ser descartada. “Para evitar, médicos geralmente marcam o parto na 38ª semana”, diz.

A relação entre cesárea e prematuridade também é constatada quando é analisado o perfil da paciente e do bebê. No Brasil, a frequência de bebês prematuros é mais alta nos Estados de São Paulo, Minas e Distrito Federal. E crianças geralmente nascem em famílias de classe média. “A prematuridade sempre foi um problema de classes mais baixas, está relacionada ao crescimento intrauterino, ao risco de pré-eclâmpsia. Mas no Brasil ocorre entre mulheres melhores condições financeiras, com maior acesso a centros de saúde.”

Aborto. A baixa velocidade na queda dos índices de mortalidade materna também é influenciada por outros dois fatores, avalia Victora: abortos clandestinos e a baixa qualidade na assistência para a gestante. Ele observa que, embora muitas mulheres tenham acesso a serviços de saúde, a qualidade do atendimento, tanto nas consultas do pré-natal quanto no momento do parto deixam a desejar.

“O aborto inseguro é um caso de saúde pública e é assim que tem de ser tratado. Convicções religiosas não devem fazer parte dessa discussão”, defende. De acordo com Victora, uma entre quatro grávidas no Brasil interrompem a gravidez. “O risco maior é enfrentado por mulheres mais pobres, que sem ter como pagar o procedimento em clínicas, acabam usando outros métodos ou com pessoas sem preparo necessário.” 

O relatório do PMNC traz uma análise sobre o assunto. O documento mostra que todos os anos cerca de 22 milhões de abortos inseguros são realizados, 75% deles em países em desenvolvimento. O trabalho defende que, em locais onde a interrupção da gravidez não é permitida em lei, sejam garantidos serviços de assistência para mulher que apresentam complicações depois da realização do aborto clandestino.  

* A jornalista viajou a convite do Fórum da Parceria para a Saúde Materna, de Recém-Nascidos e Crianças (PMNCH)

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