China quer parar de usar órgãos de condenados à morte

Projeto piloto em parceria com Cruz Vermelha do país também visa coibir tráfico de órgãos humanos

BBC Brasil, BBC

26 Agosto 2009 | 09h42

O governo da China lançou uma campanha de doação voluntária de órgãos para evitar o uso de órgãos de prisioneiros executados em transplantes e diminuir o tráfico ilegal no país.

O sistema, operado principalmente pela Cruz Vermelha da China com a assistência do Ministério da Saúde, terá início como um projeto piloto em dez províncias e cidades.

"O sistema visa ao interesse público e vai beneficiar pacientes independentemente de seu status social e riqueza, nos termos da justiça na distribuição de órgãos e aquisição", afirmou o vice-ministro da Saúde, Huang Jiefu. "Transplantes não deveriam ser um privilégio dos ricos."

De acordo com Huang, prisioneiros executados "definitivamente não são a fonte adequada de órgãos para transplantes". De acordo com especialistas médicos, mais de 65% dos doadores chineses são prisioneiros executados.

Com a entrada do novo sistema em vigor a Cruz Vermelha se tornará responsável por encorajar a doação entre os voluntários, recebendo o registro dos doadores, mantendo um banco de dados e iniciando um fundo de verbas para dar assistência financeira às famílias dos doadores - além de supervisionar a distribuição de órgãos.

O sistema vai ajudar a encontrar mais doadores voluntários, disse Jiang Yiman, vice-diretora do Instituto de Doação de Órgãos do Hospital Tongji no lançamento da campanha em Xangai.

"Os chineses têm uma tradição de ajudar os que precisam e o potencial de doação de órgãos do público ainda precisa ser explorado", afirmou.

De acordo com o jornal oficial China Daily atualmente um milhão de pessoas no país precisa de transplante de órgãos a cada ano. Estatísticas oficiais mostram que apenas 1% recebe um órgão.

Desde 2003, apenas cerca de 130 pessoas na China determinaram que seus órgãos deveriam ser doados.

Corrupção

Huang Jiefu afirmou que os direitos dos prisioneiros executados são totalmente respeitados e, no caso daqueles que vão doar órgãos, é necessária uma autorização por escrito.

Mas, Qian Jianmin, cirurgião-chefe de transplantes do Hospital Huashan de Xangai, afirmou que os hospitais que fazem transplantes não apenas tratam os pacientes que recebem os órgãos dos prisioneiros executados, mas também lidam com outros níveis do governo, incluindo o Departamento de Justiça.

"A corrupção pode aparecer durante o processo", afirmou.

Alguns apenas ignoram os procedimentos legais das doações de órgãos de prisioneiros executados e até lucram, de acordo com Huang.

Todos os custos são repassados para os pacientes. E, algumas vezes, um receptor de órgão paga até 200 mil iuans (cerca de R$ 53 mil) por um rim.

A China criou uma lei de transplantes de órgãos em 2007 que proíbe o tráfico e apenas permite doações de vivos a parentes de sangue e cônjuges, ou então alguém considerado "emocionalmente ligado" ao doador.

No entanto, intermediários falsificam documentos para que uma pessoa que precisa desesperadamente de dinheiro seja considerada "emocionalmente ligada" aos receptores, de acordo com informações do China Daily.

Jiang Yiman afirmou ao jornal oficial que os detalhes sobre o novo sistema, "como as responsabilidades serão definidas para todos os envolvidos, incluindo a Cruz Vermelha e a administração de saúde, ainda estão sendo discutidos".

Correspondentes na China afirmam que um esquema de doação voluntária será difícil de implantar no país, pois existe uma posição cultural entre os chineses contra a remoção de órgãos depois da morte. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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