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Pedro Ivo Bernardes

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Choro constante é marca típica de bebês com má-formação

‘É a forma de dizer que algo está errado’, destaca especialista; já mães comemoram cada vitória obtida no desenvolvimento motor

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Monica Bernardes, especial para o Estado em Recife; Paula Félix,
O Estado de S. Paulo

06 Março 2016 | 03h00

Amor e paciência. Essa é a “receita” da recepcionista Daniele Santos para a rotina de cuidados com João Pedro, seu filho caçula, de 3 meses de idade. Diagnosticado com microcefalia quando ainda estava no útero, o bebê apresenta um comportamento bastante irritadiço na maior parte do tempo.

“Ele chora muito e é bastante impaciente. O dia a dia é um desafio grande, mas vamos aprendendo o que fazer para tentar deixá-lo o mais confortável possível. Já sabemos que o banho é um dos momentos em que ele relaxa, demonstra prazer e se acalma. Então, tentamos aproveitar ao máximo para brincar e estimulá-lo”, detalha Daniele. 

Esse comportamento não é exclusivo de João Pedro. Crianças com lesões cerebrais, não apenas as causadas pelo vírus da zika, choram mais do que as demais, segundo Nelson Douglas Ejzenbaum, pediatra da Sociedade Brasileira de Pediatria e especialista em recém-nascidos de alto risco. “O alarme para a criança é o choro, a forma de dizer que algo está errado. Quando não tem um cérebro saudável, o bebê acaba sendo irritadiço.”

Professor de neurologia infantil da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Marcelo Masruha Rodrigues explica que a reação do bebê não necessariamente está relacionada com dor. “Pode até haver em algum casos. Quando há aumento de tônus muscular, com rigidez dos membros, a criança pode ter dificuldade para ser vestida e tirar a roupa, com aumento da pressão na região de dobras. Nos bebês menores muito irritados, a maioria não tem relação com dor.”

Essas não são as únicas complicações. “Essa microcefalia é decorrente de um dano grande no cérebro, que leva a uma alteração no desenvolvimento e pode ter uma constelação de problemas, como crises convulsivas, tensão da musculatura, choro inconsolável e dificuldade para sustentar a cabeça”, diz Fernando Kok, professor do Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Zika. Em contrapartida, segundo Daniele, João Pedro tem conquistado vitórias no desenvolvimento motor. “Comparando a firmeza do pescoço e o controle do corpinho, ele está bem próximo de como a mais velha se comportava nesta mesma idade. Não é a mesma coisa, mas é bem parecido e isso é muito bom”, comemorou.

Moradora do bairro de Apipucos, na zona norte do Recife, Daniele nunca chegou a ser diagnosticada com zika, mas lembra que sentiu alguns dos sintomas da doença aos quatro meses de gestação. “Fiquei com febre, dor no corpo e pintas vermelhas na pele por dois dias seguidos. Mas não fiz nenhum exame. Quando ele estava com cinco meses, o médico do ultrassom disse que havia algo errado. Mas só conseguimos fechar o diagnóstico aos sete meses de gravidez”, lembra. “Graças a Deus, tenho muito apoio da minha família. Meu marido, no começo, ficou sem ação, mas agora já está mais acostumado e interage ajudando sempre.” 

A empregada doméstica Laís Fragoso também aposta em paciência e amor para amenizar o choro e a irritação da pequena Beatriz, de 4 meses, diagnosticada com microcefalia. Moradora da cidade de Camaragibe, na região metropolitana do Recife, Laís conseguiu atendimento médico para a filha logo na primeira semana de vida com o apoio da patroa, que é médica. “Ela ainda chora muito, mas está sendo acompanhada por um neuropediatra e aos poucos tenho notado que há pequenas melhoras.”

O Ministério da Saúde e os Estados investigam 4.222 casos suspeitos de microcefalia em todo o País – há 641 confirmados.

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