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Paul Sancya/AP

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Chumbo e indústria química exigem nova revolução na saúde

Estudiosos defendem que o mundo atual precisa de evolução no setor focada em crianças pequenas, como a ligada ao saneamento

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Nicholas Kristof,
The New York Times

26 Fevereiro 2016 | 08h00

Mesmo que você não esteja em Flint, no Estado de Michigan, existem substâncias químicas tóxicas na sua casa. Na verdade, dentro de você.

Cientistas identificaram mais de 200 produtos industriais - pesticidas, retardadores de chama, combustível de avião - e neurotoxinas tais como chumbo no sangue ou leite materno de norte-americanos, na verdade, em pessoas de todo o nosso planeta.

Essas substâncias foram vinculadas a câncer, deformidades genitais, contagem baixa de esperma, obesidade e QI reduzido. Organizações médicas como o Painel sobre Câncer do Presidente dos Estados Unidos e a Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia exigiram regras mais severas ou alertaram as pessoas para evitá-las, e o Painel alertou que "em uma abrangência preocupante, bebês estão nascendo 'pré-poluídos'".

As afirmativas foram atropeladas pelos lobistas da indústria química.

Então, temos uma situação notável:

- Os políticos, com certo atraso, condenam a catástrofe da intoxicação por chumbo na cidade de Flint, mas poucos reconhecem que o problema em muitos lugares do país é ainda pior do que lá. As crianças têm maior probabilidade de intoxicação por chumbo na Pensilvânia, em Illinois e em quase todo o Estado de Nova York do que em Flint. Voltaremos a este assunto.

- Os norte-americanos estão entrando em pânico por causa do vírus zika, transmitido por mosquito, e com a perspectiva de que uma infecção disseminada possa chegar aos Estados Unidos. Trata-se de uma preocupação legítima, mas especialistas em saúde pública garantem que as substâncias tóxicas ao nosso redor representam uma ameaça ainda maior.

"Eu não acredito que o vírus zika vá causar mais danos do que uma pequena fração do número total de crianças afetadas pelo chumbo nas habitações deterioradas e pobres nos Estados Unidos", afirmou o Dr. Philip Landrigan, pediatra de renome e diretor de saúde global da Faculdade de Medicina Icahn do Hospital Monte Sinai.

"Chumbo, mercúrio, bifenil policlorado, retardadores de chama e pesticidas provocam danos cerebrais pré-natais em dezenas de milhares de crianças deste país todos os anos", disse Landrigan.

Contudo, uma prova do nosso sistema político falho é que as empresas químicas, que gastam grandes somas com lobby - US$ 100 mil por membro do Congresso no ano passado -, impedem uma supervisão séria. Quase nenhuma das substâncias químicas nos produtos que usamos cotidianamente foi testada em termos de segurança.

Talvez, e apenas talvez, a crise em Flint possa ser usada para estimular uma revolução na saúde pública.

Em 1854, o médico britânico John Snow deu início a uma dessas revoluções. Milhares de pessoas estavam morrendo de cólera naquela época, e os médicos já estavam conformados com a ideia de que tudo que podiam fazer era tratar os pacientes doentes. Então, Snow descobriu que uma bomba de água em Broad Street, Londres, era a fonte da cólera. A companhia de água rejeitou com fúria aquela conclusão, mas Snow bloqueou o uso daquela bomba e o surto da doença praticamente chegou ao fim.

A revelação levou à teoria do germe da doença e a investimentos em saneamento e água limpa. Milhões de vidas foram salvas.

Agora, precisamos de uma revolução similar na saúde pública concentrada nas causas de muitas patologias.

Por exemplo, é um escândalo que 535 mil crianças norte-americanas com idades entre um e cinco anos tenham sido intoxicadas por chumbo, segundo o Centro para Controle e Prevenção de Doenças. A intoxicação é em grande medida o resultado de tinta com chumbo descascando em casas velhas ou de solo contaminado por chumbo encontrado nas casas, ainda que algumas áreas como Flint também tenham água contaminada nas torneiras.

Embora o conjunto de dados seja fraco, muitas partes dos Estados Unidos têm índices ainda mais elevados de crianças intoxicadas por chumbo do que Flint, onde 4,9% das crianças examinadas apresentavam níveis altos do elemento no sangue. No Estado de Nova York, sem contar a cidade de Nova York, a taxa é de 6,7%. Na Pensilvânia, de 8,5%. Em uma área de Detroit, é de 20%. As vítimas costumam ser pobres ou negras.

Crianças que absorvem chumbo apresentam uma maior probabilidade de crescer com cérebros encolhidos e QI reduzido. Na juventude, têm uma chance maior de se envolver em comportamento sexual de risco, abandonar a escola e cometer crimes violentos. Muitos pesquisadores acreditam que o declínio mundial em crimes violentos, que teve início na década de 90, possa em parte ser atribuído à remoção do chumbo da gasolina no final da década de 70. Os riscos são enormes, em termos de oportunidades individuais e coesão social.

Felizmente, temos alguns Snows no século 21.

Um grupo de estudiosos, chefiados por David L. Shern, da Mental Health America, argumenta que o mundo atual precisa de uma nova revolução na saúde pública focada em crianças pequenas, semelhante à ligada ao saneamento após as descobertas de Snow sobre a cólera em 1854. Novamente, temos informação sobre como impedir as patologias - não apenas tratá-las - se decidirmos agir.

O motivo para uma nova iniciativa é uma grande quantidade de pesquisa recente demonstrando que o desenvolvimento cerebral no começo da vida afeta a saúde física e mental décadas mais tarde. Ou seja, proteger o desenvolvimento do cérebro de substâncias perigosas e também de "estresse tóxico" - geralmente um subproduto da pobreza - para impedir níveis elevados do cortisol, o hormônio do estresse, que prejudica o desenvolvimento cerebral.

Um ponto inicial dessa revolução na saúde pública seria proteger crianças e fetos de substâncias tóxicas, o que significa confrontar as empresas que compram legisladores para impedir a regulamentação. Da mesma forma que as companhias de água tentavam obstruir as iniciativas do século 19, o setor químico tenta impedir o progresso recente.

Em 1786, Benjamin Franklin comentou extensivamente sobre os perigos da intoxicação por chumbo, mas o setor ignorou os perigos e vendia o chumbo agressivamente. Na década de 1920, um anúncio da National Lead Company declarava que o "chumbo ajuda a defender sua saúde", elogiando a utilização de canos de chumbo no encanamento e de tinta à base de chumbo nos lares. E o que as empresas de chumbo fizeram por décadas, e que as de tabaco também fizeram, as de química fazem hoje em dia.

A intoxicação por chumbo é só "a ponta do iceberg", disse Tracey Woodruff, especialista ambiental da Universidade da Califórnia, câmpus de San Francisco. Segundo ela, os retardadores químicos de chamas também têm efeitos similares e eles se encontram nos sofás em que sentamos.

O desafio é que as mortes não são óbvias, como no caso da cólera, mas invisíveis e em longo prazo. São epidemias silenciosas, então não geram tanto alarme público quanto deveriam.

"Os produtos químicos industriais que prejudicam o desenvolvimento do cérebro" foram ligados a problemas como autismo e transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, observou The Lancet Neurology, periódico médico revisado por especialistas. Todavia ainda não temos uma noção clara do que é seguro, porque muitos produtos químicos industriais não têm sua segurança testada quando são colocados no mercado. Enquanto isso, o Congresso retarda as tentativas de endurecer as leis que regem o setor, testando a segurança de mais substâncias.

O Painel sobre Câncer recomendou que a população consuma produtos orgânicos se possível, filtre a água e evite aquecer alimentos em recipientes plásticos. Bons conselhos, mas é o mesmo que dizer para as pessoas evitarem a cólera sem fornecer água limpa.

E é por isso que precisamos de outra revolução na saúde pública no século 21.

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