WILTON JUNIOR/ESTADÃO
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Cidade do sertão de PE tem 11 suspeitas de microcefalia em 45 dias

Com seca histórica, Itapetim tinha no início do ano o maior índice de 'Aedes' de Pernambuco; distribuição de piabas reduziu infestação

Clarissa Thomé, Enviada especial

16 Dezembro 2015 | 03h00

ITAPETIM (PE) - O nascimento nos últimos 45 dias de 11 bebês com suspeita de sofrer de microcefalia assusta a população de Itapetim, no Vale do Pajeú, sertão pernambucano, sem infraestrutura médica para o atendimento a pouco menos de 14 mil habitantes. Como ação de emergência, a prefeitura e o governo estadual decidiram levar as crianças para o Recife, a 360 km de distância.

O número elevado de casos suspeitos para o tamanho da população chamou a atenção da equipe médica do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc) - há cerca de 200 nascidos vivos no município por ano. Os casos foram identificados pela Secretaria Municipal de Saúde, que checou dados de prontuários, cartões de saúde dos recém-nascidos e cadastros de postos de saúde. Cinco nasceram com menos de 32 centímetros de perímetro cefálico, parâmetro adotado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para indicar a microcefalia. Os demais têm 33 centímetros - o primeiro protocolo do Ministério da Saúde enquadrava bebês com essas características como casos suspeitos.

“Fizemos uma busca ativa nos cadastros para saber quantos casos tínhamos e fomos surpreendidos. Não temos neuropediatras para acompanhar esses bebês. Precisamos do apoio do governo do Estado e do governo federal”, afirmou a secretária de Saúde, Jussara Araújo.

Pré-natal. Valentina, de 12 dias, é uma das crianças que podem ter microcefalia. A menina nasceu com 31 centímetros de perímetro cefálico. A dona de casa Thamires Santos da Silva, de 22 anos, disse que “só fazia chorar”, quando foi avisada pela médica da possibilidade de a filha ter a má-formação. “Eu tomei um susto. Pensei em tanta coisa que passa na televisão, que as crianças ficam com sequelas. A médica disse para eu não ficar muito assustada.”

“Ela só chora para mamar. Tenho até conseguido dormir. Ela mama bem”, disse Thamires, que não lembra de ter tido os sintomas de zika no início da gravidez. “É nisso que eu me agarro. Não tive nem febre nem manchas.” Thamires fez o pré-natal e passou por ultrassonografias, mas só depois da cesariana é que foi informada que a filha estava entre os casos suspeitos de microcefalia.

Em nenhum dos registros de Itapetim a suspeita de microcefalia foi descoberta durante a gestação, apesar de as mulheres terem tido acompanhamento. A infectologista Regina Coeli Ferreira Ramos, do Huoc, defende o aprimoramento do pré-natal, com treinamento para os profissionais de imagem e contratação de psicólogos que ajudem a amparar as mães durante a gravidez.

No início do ano, Itapetim tinha o maior índice de infestação de Aedes aegypti de Pernambuco - em 13% dos domicílios foram encontradas larvas do mosquito, quando o índice aceitável pela OMS é de 1%. “Isso acontece por causa da seca (a pior em 50 anos). As pessoas pensam que é a chuva que faz proliferar o mosquito”, afirmou o diretor da Unidade Mista Maria Silva, Alysson Magno da Silva Salvador, de 36 anos. Desde setembro de 2013, a água não sai das torneiras. Um carro-pipa abastece caixas instaladas nas ruas da cidade a cada oito dias. A população faz fila para encher baldes e armazenar água em qualquer reservatório possível.

Piabas. Para combater a proliferação do mosquito, a prefeitura distribuiu piabas, pequenos peixes que se alimentam das larvas, para a população. O índice de infestação caiu para 2,4%. “Os hospitais das cidades vizinhas estão lotados de casos suspeitos de zika e dengue”, disse a secretária de Saúde. Equipes do Ministério da Saúde já estiveram na cidade para estudar a estratégia de Itapetim, premiada nesta terça-feira, 15, como a melhor iniciativa entre as Secretarias de Saúde de Pernambuco para o combate à dengue.

Pânico. O aumento dos casos de microcefalia tem causado pânico entre as grávidas. A agricultora Fabrícia Gleyce Pereira dos Santos, de 23 anos, por exemplo, foi diagnosticada com dengue no fim da gravidez - a cesariana está marcada para o próximo dia 23. “Tive febre, dor no corpo. Fiquei com muito medo de ser zika e de o bebê ter sido afetado. Mas todo médico que me atendeu disse que ele não corre risco de microcefalia porque já está todo formado”, disse.

Fabrícia conta ter ido a três médicos. “Queria ouvir várias opiniões.” Ela ainda fará uma ultrassonografia. “Também vou pedir para medir a cabeça dele.”

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