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Cientista já estudava há anos chance de zika ser transmitido pelo sexo

Brian Foy ficou doente após viagem; depois, sua mulher também adoeceu, o que o levou a estudar o vírus

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Niraj Chokshi,
The New York Times

03 Fevereiro 2016 | 19h48

Em 2011, Brian Foy, um pesquisador que estuda moléstias transmitidas por mosquitos, afirmou em um paper ter encontrado prováveis evidências de um vírus pouco conhecido transmissível sexualmente. Se isto fosse comprovado, seria o primeiro caso documentado em todo o mundo de transmissão sexual do vírus, ele disse na época.

Foy queria estudá-lo mais a fundo, mas ninguém lhe concedeu a verba de que precisava, alegando que ele detectara um único caso, e que o vírus - conhecido como zika - era excessivamente complexo.

Hoje, tudo isto deixou de ser verdade.

Na segunda-feira, a Organização Mundial da Saúde declarou o vírus zika - e suas supostas complicações em recém-nascidos - uma emergência de saúde pública de âmbito internacional.

Na terça-feira, autoridades da saúde em Dallas anunciaram o que parecia uma confirmação da descoberta de Foy. Na quarta-feira, um caso de infecção pelo vírus por meio do sexo fizera com que a OMS pedisse novas pesquisas. O anúncio justificava o trabalho de Foy, que há muito buscava financiamento para investigar o caso.

“A esta altura, poderia ter sido feita uma pesquisa muito maior, e talvez tivéssemos chegado à conclusão de que deveríamos temer uma epidemia futura (como a atual) e procurar como controlá-la”, disse o biólogo da Colorado State University por e-mail, depois que o caso de Dallas foi confirmado. “Agora, todos nós estamos atrás disso e precisamos correr contra o tempo”.

Foy entrou em contato com o zika por acaso. Antes, porém, havia um mistério a ser desvendado.

No verão de 2008, Foy e Kevin Kobylinski, que acabava de se formar, realizaram pesquisas na aldeia de Bandafassi, no sudeste de Bengala, uma região conhecida pela transmissão de doenças por mosquitos. Em agosto daquele ano, os dois regressaram ao Colorado e imediatamente ficaram doentes.

Não foi nenhuma surpresa. Mas então aconteceu algo estranho. Dias depois de Foy adoecer, sua esposa, Joy Chilson Foy, começou a apresentar os mesmos sintomas: dores de cabeça, arrepios, dor nas juntas e erupções cutâneas no tronco.

Enquanto a doença agravava, Foy fez algo que pareceu estranho a todos, menos a um cientista: Ele tirou e congelou amostras do seu sangue e da esposa e pediu ajuda ao Centro de Controle e Prevenção de Doenças para a realização de novos testes.

Como os vírus muitas vezes não podem ser detectados na época do aparecimento dos sintomas, os cientistas do Centro procuraram anticorpos, as defesas do organismo contra um vírus. Os resultados deram o vírus da dengue no caso de Foy, mas não permitiram definir o que sua esposa tinha. Embora perplexos, todos seguiram em frente com suas vidas.

Entretanto, em 2009, Kobylinski regressou do Senegal. Lá ele conversou longamente e bebeu várias cervejas com outro cientista, que era neto de um dos descobridores do zika, dezenas de anos antes.

“Li tudo o que estava nas pesquisas do meu avô, porque a matéria me interessava profundamente”, falou o pesquisador, Andrew Haddow, à revista Science para um artigo publicado em 2011, que pela primeira vez relatava a história de Foy - identificando-o, sua esposa e Kobylisnki como os pacientes anônimos dos seus estudos.

Haddow sugeriu que os três testassem suas amostras congeladas do zika. As três amostras deram resultado positivo.”Estava claro que ela pegara o zika e que eu tinha zika, então estabelecemos a relação porque eu certamente o transmiti a ela”, disse Foy ao jornal The Washington Post. Mas se isso fosse verdade, de que maneira teria acontecido? Foy supôs que ele e Kobylinski foram infectados pelos mosquitos no Senegal. No entanto, a infecção de sua esposa os deixava perplexos.

Não podia ter sido um mosquito, porque os mosquitos tropicais que transmitem o zika não se encontram em Fort Collins, Colorado, certamente não naquela época do ano. E o vírus do zika tem de incubar num mosquito por cerca de duas semanas antes de poder se transferir novamente para outro humano.

Também era improvável que tivesse sido transmitido mediante contato direto porque isto nunca fora documentado anteriormente no caso destes vírus - além disso, os quatro filhos de Foy não adoeceram.

“Costumo brincar com meus filhos, beijá-los e lutar com eles o tempo todo - principalmente depois de ficar por tanto tempo longe deles”, contou Foy. Com isto, ele só podia chegar a uma conclusão: o zika podia ser sexualmente transmitido.

Escreveu seu paper, que foi publicado em 2011 na revista Emerging Infectious Deseases dos Centros de Controle de Doenças. Mas ele queria saber mais.

“Comecei a estudar o caso, mas de maneira muito limitada porque não conseguia verba para as pesquisas”, disse. “Ninguém queria financiar o meu estudo, alegando que se tratava de um único evento, e que o zika não era importante”.

Cinco anos mais tarde, ninguém fala mais isso. Depois do anúncio alarmante de que os pesquisadores haviam descoberto um caso de zika transmitido sexualmente - um fato que mudou toda a questão, segundo o diretor de Serviços Humanos e da Saúde do Condado de Dallas - Foy confessou que estava confuso.

“Estou animado porque parece que se trata de outra confirmação das nossas descobertas iniciais”, escreveu num e-mail, “mas ao mesmo tempo estou triste porque penso no que isto poderia significar para a sociedade e para o controle desta doença”.

Tradução de Anna Capovilla

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