Cientistas detectam declínio no plâncton dos oceanos

Os números são desconcertantes e assustadores, dizem os pesquisadores

Associated Press

28 Julho 2010 | 15h48

Células microscópicas de Rhizosolenia setigera, uma das espécies do fitoplâncton. Karl Bruun/AP

 

A despeito de seu tamanho, as minúsculas plantas marinhas conhecidas como o fitoplâncton são cruciais para boa parte da vida na Terra. São o alicerce da cadeia alimentar dos oceanos, produzem metade do oxigênio do mundo e absorvem gás carbônico. E sua população está em queda acentuada.

 

Os níveis mundiais de fitoplâncton caíram 40% desde os anos 50, de acordo com estudo publicado na edição desta semana da revista científica Nature. A causa provável é o aquecimento global, que dificulta o acesso do plâncton a nutrientes, dizem os pesquisadores. 

 

Os números são desconcertantes e assustadores, dizem os pesquisadores canadenses que conduziram o estudo e um especialista dos Estados Unidos.

 

"É preocupante porque o fitoplâncton é a moeda básica de tudo que acontece no oceano", disse o biólogo Boris Worm, da Universidade Dalhousie, um coautor do trabalho. "É como uma recessão... que estivesse perdurando por décadas".

 

Meio milhão de pontos de informação, datando de 1899, mostram que os níveis de fitoplâncton em praticamente todos os oceanos do mundo começaram a cair nos anos 50. As maiores mudanças ocorreram no Ártico, no Atlântico sul e equatorial e no Pacífico equatorial. Apenas o Oceano Índico não mostra declínio. Os autores do estudo afirmam que, a despeito da redução, é muito cedo para dizer que o fitoplâncton esteja a caminho de desaparecer.

 

A principal cientista de mudança climática do serviço geológico do governo dos EUA, Virginia Burkett, disse que os números do plâncton são preocupantes e mostram problemas que não podem ser vistos apenas com a observação de espécies mais populares, como golfinhos ou baleias.

 

"Essas espécies diminutas indicam que mudanças de larga escala nos oceanos estão afetando os produtores primários do planeta", disse ela, que não tomou parte no estudo.

 

Quando o fitoplâncton diminui, como ocorre no ciclo do El Niño, pássaros e mamíferos marinhos morrem de fome em grande quantidade, dizem especialistas.

"Fitoplâncton, no fim, afeta todos nós em nossas vidas", disse o principal autor do trabalho, Daniel Boyce. "Muito do oxigênio em nossa atmosfera hoje foi produzido por fitoplâncton ou precursores de fitoplâncton nos últimos 2 bilhões de anos".

 

Worm explica que, quando a superfície do mar se aquece, a água quente no topo não se mistura mais tão facilmente com a água fria abaixo. Isso faz com que seja mais difícil para o fitoplâncton, que é leve e frequentemente vive perto da superfície, obtenha nutrientes das águas mais profundas.

 

Estudos anteriores sobre plâncton se valeram basicamente de dados de satélite, que só vão até 1978. Mas Worm e colegas usaram uma abordagem de baixa tecnologia, discos criados pelo cientista Pietro Angelo Secchi no século 19. Os discos medem a opacidade dos oceanos. Quando mais opacas as águas, mais plâncton. Cientistas independentes disseram que a abordagem é válida.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.