Cientistas encontram relação entre proteína do sangue e Alzheimer

Níveis elevados de uma proteína chamada clusterina estariam ligados ao surgimento da doença

Reuters

06 Julho 2010 | 11h30

LONDRES - Níveis elevados de uma proteína sanguínea chamada clusterina estão ligados ao surgimento do mal de Alzheimer, disseram cientistas na última segunda-feira, 5, numa descoberta que, no futuro, poderia permitir um diagnóstico precoce da doença.

Pesquisadores do Instituto de Psiquiatria do King's College, de Londres, disseram que, ainda que os médicos levem cerca de 5 anos para conseguir aplicar a descoberta em um exame que identifique futuras vítimas do Alzheimer, esse foi um grande passo.

O mal de Alzheimer é a forma mais comum de demência, condição de deterioração cerebral que atinge cerca de 35 milhões de pessoas no mundo. Apesar de haver pesquisas sobre a doença há décadas, os médicos ainda têm poucas armas efetivas contra ela.

Algumas drogas podem atenuar temporariamente os sintomas, mas inevitavelmente os pacientes acabam perdendo suas lembranças e a capacidade de entender o mundo e de cuidar de si mesmos.

O time de pesquisadores usou uma técnica chamada proteômica, que analisa proteínas, em 95 pacientes e chegou à conclusão de que a clusterina estava relacionada aos primeiros sinais do Alzheimer. O resultado foi publicado na revista médica Archives of General Psychiatry.

"Descobrimos que essa proteína estava aumentada no sangue até dez anos antes de as pessoas terem sinais do mal de Alzheimer em seus cérebros", disse Simon Lovestone, que comandou o estudo.

"E mesmo quando elas tinham sinais da doença no cérebro, ainda não tinham sinais clínicos do transtorno. Então, isso sugere que essa seja realmente uma mudança prematura, que ocorre em pessoas que vão desenvolver a doença", completa.

Lovestone destacou que ainda há muito trabalho a ser feito antes que um exame possa ser usado por médicos em clínicas, mas que no futuro essa técnica será parte de uma série de procedimentos para identificar pessoas em estágio inicial da doença.

A incidência mundial do mal de Alzheimer deve aumentar por causa do envelhecimento da população mundial. Segundo a organização Alzheimer's Disease International, esse número deve quase duplicar a cada 20 anos, chegando a 66 milhões de pacientes em 2030 e a 115 milhões em 2050.

"Achamos que esse é o primeiro passo na direção de um exame pródromo ou pré-clínico para a doença", disse Lovestone. Um exame pródromo é aquele que detecta uma doença antes do surgimento de sintomas específicos.

"Se eu olhar para o futuro, um teste assim poderá ser usado como parte do processo. As pessoas poderão fazer um exame de sangue e, então, aquelas que tiverem altos níveis de clusterina deverão investigar o caso mais a fundo", afirmou Lovestone.

Após o estudo inicial com 95 pacientes, os pesquisadores avaliaram os níveis de clusterina em cerca de 700 pessoas, incluindo 464 com Alzheimer, e descobriram uma ligação entre os níveis elevados dessa proteína e a gravidade da doença, a rapidez do seu avanço e a atrofia em uma área cerebral chamada córtex entorrinal, associada à memória.

Lovestone disse que o próximo passo, que pode levar cerca de um ano, é desenvolver um exame mais aprimorado, uma vez que o teste usado na pesquisa não é adequado para uso clínico.

"Quando tivermos preparado um exame melhor, precisamos analisá-lo em grupos maiores de pessoas, para ver se os resultados serão replicados", disse. "Todo o processo levará de três a cinco anos."

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