AP/Themba Hadebe
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Combate ao Ebola mostra primeiros sinais do fim da epidemia

Investida contra a doença em Serra Leoa tem tido bons resultados; número de casos em janeiro é o menor dos últimos cinco meses

Emma Farge e Umaru Fofana, REUTERS

21 Janeiro 2015 | 13h24

FREETOWN - Uma operação em estilo militar de combate ao Ebola ajudou a reduzir drasticamente o surgimento de novos casos em Serra Leoa, no que autoridades de saúde dizem ser um grande avanço para derrotar a doença. Desde que foi lançada, há cerca de um mês, a ação dobrou o número de ambulâncias em áreas densamente povoadas no oeste do país africano, o mais afetado pela epidemia, onde mais de três mil pessoas morreram. 

Entre as medidas estão a checagem da temperatura de tripulantes de veículos, feita pela polícia em postos de controle, enquanto cartazes foram espalhados com a inscrição na língua local krio: "Juntos podemos parar o Ebola". Como resultado, o vírus da febre hemorrágica reduziu rapidamente seu ritmo de transmissão em Serra Leoa, onde mais de 10 mil casos foram registrados desde maio do ano passado. Apenas 184 novos diagnósticos foram registrados na semana terminada em 11 de janeiro - o menor número em cinco meses. 

Mais da metade dos leitos em centros de tratamento por toda Serra Leoa encontram-se agora vazios. Um flagrante contraste diante do pico da epidemia, em novembro, quando os centros de saúde em Freetown ficaram lotados e pacientes tinham de esperar dias por uma ambulância, enquanto corpos permaneciam sem sepultamento ou eram enterrados secretamente em quintais.

A mudança no quadro levou o presidente Ernest Bai Koroma a dizer acreditar que seu governo - ajudado por cerca de 800 soldados britânicos e mais de 450 milhões de dólares em auxílio internacional - pode registrar o último caso de Ebola em Serra Leoa até o fim de março. Alguns especialistas de saúde e trabalhadores de ajuda humanitária mostram-se mais cautelosos. 

Eles esperam que o sucesso em Freetown e seus arredores representa um grande passo para derrotar a doença, agora que Libéria e Guiné também parecem ter estabilizado a disseminação do Ebola, mas demonstram cautela em decretar o fim do surto, que em abril passado parecia perder força na Guiné e depois retornou com ferocidade. 

"O problema de Serra Leoa é fazer a curva. Acho que vamos nos aproximar de zero até março por lá, contando que não haja surpresas", disse Philippe Maughan, um dos principais gestores das operações contra o Ebola na Echo, braço de ajuda humanitária da Comissão Europeia. "Mas vão aparecer casos aqui e ali entre os próximos seis meses e um ano, e vamos precisar lidar com eles", acrescentou.

Bolsões de resistência. O Centro Nacional de Resposta ao Ebola, um novo órgão em moldes militares presidido por Koroma, lançou em Serra Leoa a "Operação do Surto da Área Oeste" no mês passado. O país com seis milhões de habitantes tem na pesca e na agricultura suas principais atividades econômicas, mas  enormes reservas minerais a serem exploradas. 

O principal cemitério de Freetown foi expandido e os corpos das vítimas de Ebola, altamente contagiosos, são enterrados em covas profundas em no máximo 24 horas, de acordo com os rígidos protocolos de combate à transmissão. 

O Ebola se espalha por meio do contato com fluidos corporais de pessoas infectadas ou do corpo de alguém que tenha morrido da doença. O centro de combate à doença destaca alguns bolsões de resistência à luta contra a doença na capital, o que as autoridades atribuem à desconfiança suscitada pela fraca resposta inicial antes do surto maior.

Valores culturais. Tem se provado mais difícil modificar as atitudes em Freetown do que em áreas rurais, apesar da alta densidade de casos na cidade, de uma em cada 300 pessoas - um fator que normalmente levaria a uma maior conscientização. Em novembro, uma pesquisa mostrou que menos da metade dos entrevistados em Freetown e arredores possuíam conhecimento suficiente sobre o Ebola - o menor nível em todo o país. 

"Em Freetown, muitos vivem vidas nômades, então a possibilidade de transmissão das mensagens corretas é menor do que em distritos rurais", disse o antropólogo britânico Paul Richards, que possui 30 anos de experiência em Serra Leoa. Ele disse que algumas pessoas resistem porque o combate à transmissão fere relevantes valores culturais: "Você tem que abandonar algumas características básicas atribuídas a uma pessoa boa - visitar os doentes e dar tratamento decente aos mortos", comentou. 

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