Divulgação/Science
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Concentração no que se faz reduz a infelicidade, diz estudo via iPhone

Divagação reduz a sensação de felicidade, de acordo com questionários distribuídos por meio do telefone

Carlos Orsi e Karina Toledo, estadão.com.br e O Estado de S. Paulo

11 Novembro 2010 | 17h15

Pessoas que divagam em meio a suas atividades sentem-se menos felizes do que pessoas que se concentram no que estão fazendo no momento. E não importa se a divagação é no sentido de um pensamento feliz - as férias, por exemplo - e a atividade, desagradável.

 

Essa é a conclusão, publicada na edição desta semana da revista Science, de um estudo conduzido entre mais de 2.000 adultos, que foram consultados via iPhone sobre seus pensamentos e estado de espírito.

 

"Não descartamos a possibilidade de que algumas situações sejam tão ruins que seria melhor divagar, mas como não vimos evidência desse tipo, nossos dados sugerem que elas são raras", disse o principal autor do trabalho, o psicólogo Matthew A. Killingsworth, da Universidade Harvard.

 

Para realizar o levantamento, Killingsworth cadastrou voluntários usuários de iPhone, a partir do site http://www.trackyourhappiness.org/. Essas pessoas passaram a receber torpedos três vezes ao dia, perguntando o que estavam fazendo, no que estavam pensando e se se sentiam felizes ou não.

 

"Nós simplesmente perguntávamos às pessoas se elas estavam pensando 'em alguma outra coisa' diferente do que estavam fazendo, de acordo com suas definições próprias", explica o pesquisador.

 

Um resultado foi o de que as pessoas passam cerca de metade do tempo em que estão acordadas divagando. "Divagações ocorreram em 46,9% das amostras", escrevem Killingsworth e seu coautor, Daniel T. Gilbert. A menor taxa de divagação foi a medida durante o sexo: 10%. Nas demais atividades, o mínimo encontrado foi de 30%.

A maioria dos voluntários é dos EUA, mas  Killingsworth disse que Brasil, Canadá, Reino Unido e Alemanha também tiveram muitos participantes. O levantamento continua, e agora já conta com cerca de 5.000 participantes.

 

A divagação com pensamentos negativos foi a que trouxe mais infelicidade, mas divagações neutras ou positivas também reduziram a felicidade experimentada, na comparação com a das pessoas que estavam concentradas em suas atividades.

 

Entre as atividades, a que trouxe mais felicidade aos voluntários foi "fazer amor", seguida de "exercitar-se". As menos felizes são "dormir" e "trabalhar".

 

O artigo diz ainda que os pensamentos permitem prever o estado de espírito das pessoas melhor que as atividades.

 

A análise estatística dos dados, dizem os autores, revela que a divagação precede a infelicidade -- e, portanto, que as pessoas não começam a divagar porque estão tristes.

 

As análises também levaram os autores a concluir que a atividade realizada explica apenas 4,6% da variação de felicidade das pessoas entre dois momentos, e somente 3,2% da variação na comparação com outras pessoas. 

 

Já o que a pessoa está pensando explica 10,8% da variação de um momento para o outro, e 17% da variação de uma pessoa para a outra.

 

Críticas

 

A filósofa Olgária Matos classifica a pesquisa como um "fenômeno tipicamente americano". "Faz gráficos, junta pontos e não quer dizer absolutamente nada. É uma tentativa de cientifização do cérebro. Recaída do positivismo na ciência, que volta na figura da neurociência", diz.

 

Para Olgária, a divagação, ou "mind-wandering" de que a pesquisa fala não pode ser entendida como sinônimo de pensar. "Para pensar você precisa de concentração e imersão no seu objeto de pensamento. O que a pesquisa chama de 'wandering' é a dispersão da contemporaneidade. É fruto da exaustão causada pelo excesso de informação, impossibilita o pensamento."

 

O psicanalista Jorge Forbes faz críticas ainda mais ácidas à pesquisa, que ele classifica como um "comportamentalismo banal e reducionista"."Acho extremamente preocupante que a revista Science, uma das duas maiores referência mundiais em ciência, publique algo tão medíocre".

 

O ideal para os autores, afirma Forbes, seria que os seres humanos passassem a agir como animais, ou seja, sem se questionar sobre o que estão fazendo ou deixando de fazer.

 

"Assim, todos os aspectos criativos vão por água abaixo. É porque o ser humano duvida que ele inventa novas situações. Você nunca verá um congresso de vacas porque elas pensam sempre a mesma coisa."

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