REUTERS/Nacho Doce
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Contra tendência mundial, casos de aids aumentam no Brasil

Dados divulgados pela UNAids, órgão da ONU para lidar com a epidemia, apontam que o número de novas infecções aumentou em 3% entre 2010 e 2016 no País

Jamil Chade, Correspondente

20 Julho 2017 | 05h00
Atualizado 20 Julho 2017 | 17h16

GENEBRA - Aumentou o número absoluto de novos casos de aids no Brasil, em uma tendência contrária ao que se registra na média mundial. Dados divulgados nesta quinta-feira, 20, pela UNAids, órgão da ONU para lidar com a epidemia, apontam que o número de novas infecções a cada ano no Brasil aumentou em 3% entre 2010 e 2016. No mundo, essa taxa sofreu uma contração de 11%. 

A elevação no Brasil é considerada pequena, passando de 47 mil novos casos em 2010 para 48 mil em 2016. Mas mesmo considerando a margem de erro e o aumento da população, a realidade é que a estimativa não aponta para uma queda no número absoluto, como o que tem sido registrado em diversas outras partes do mundo e mesmo na região. 

De acordo com o novo levantamento, o total de adultos latino-americanos infectados pelo vírus se manteve estável desde 2010, com cerca de 96 mil em 2016. No início da década, o volume era de 94 mil. Foram registradas ainda 1,8 mil novas contaminações de crianças em 2016, principalmente na Venezuela e no Brasil. 

No Uruguai, Nicarágua, El Salvador e Colômbia, a queda de novos casos foi de 20% entre 2010 e 2016. Hoje, 49% das novas infecções latino-americanas afetam brasileiros. O segundo lugar é do México, com apenas 13%. 

O número de mortes por aids no Brasil tampouco conseguiu ser reduzido e ficou estável em 14 mil vítimas por ano, entre 2010 e 2016. 

Procurada pela reportagem, a UNAids disse que não faria uma análise específica sobre a situação no Brasil e estava, neste momento, apenas apresentando os novos números. Hoje, são 830 mil os brasileiros que vivem com o vírus, em um total de 1,8 milhão de latino-americanos. 

Os dados também apontam que 60% das pessoas com aids no Brasil contam com acesso ao tratamento. A média, nesse caso, é superior à taxa mundial. A UnAids estima que, em 2016, cerca de 53% das pessoas vivendo com aids no mundo - 19,5 milhões de pessoas - tinham acesso a terapias antirretrovirais. Em 2010, esse número era de apenas 7,7 milhões. 

Mundo. Se no Brasil a tendência é de alta, o órgão da ONU comemora os avanços na média mundial. No ano passado, foram 1,8 milhão de novos casos. Em 2010, o volume havia sido de 1,9 milhão, mesmo com uma população global menor. No que se refere às crianças, a taxa de novos afetados caiu 47%. 

O número de mortes também sofreu uma queda importante, passando de 1,5 milhão em 2010 para 1 milhão em 2016. Na América Latina, o número de pessoas que morreram pela aids também caiu. Mas em uma taxa menor: foram 36 mil mortes em 2016, 12% abaixo de 2010. 

No mundo, a combinação de novos tratamentos, maior acesso e a falta de uma vacina levou o número total de pessoas vivendo com a aids a chegar a 36,7 milhões ao final do ano passado. Em 2000, esse total era de 27,7 milhões.

Para a entidade, os avanços apenas foram possíveis graças a um aumento inédito dos recursos para a doença. Em 2000, gastou-se cerca de US$ 5 bilhões coma aids. Hoje, esse investimento chega a US$ 20 bilhões. 

Na América Latina, o investimento passou de US$ 1 bilhão em 2006 para US$ 2,6 bilhões dez anos depois. Mas um aumento de 22% ainda será necessário para atender às demandas da região até 2020. 

Metodologia. Em nota, o Ministério da Saúde cita a metodologia usada pelo relatório da Unaids para explicar a alta do número de casos de aids registrados no País. De acordo com a pasta, o fato de o País ser o mais populoso da América Latina acaba provocando indicadores mais elevados quando comparados com outros países. O ideal, de acordo com Ministério, teria sido usar taxas de detecção da infecção, obtidas a partir da divisão do número de casos pelo número de habitantes.

A pasta afirma ainda que dados epidemiológicos do Brasil indicam a estabilização da epidemia, com tendência de queda. Segundo o Boletim Epidemiológico HIV/Aids 2016, em 2013 foram notificados 42.266 casos de aids. Em 2014, foram registradas 41.007 ocorrências. Em 2015, outros 39.113 casos. As taxas de detecção nesses anos foram de 21,0 para cada grupo de 100 mil habitantes (2013), 20,2 (2014) e 19,1 (2015), o que demonstra essa estabilização.

Em 2013, foram 12.564 óbitos em 2013; 12.575 no ano de 2014, e 12.298 em 2015. As taxas de mortalidade foram 5,7 para cada 100 mil pessoas em 2013 e também em 2014; e de 5,6 em 2015.  “O número de mortes também se mantém estável”, diz a pasta. /COLABOROU LÍGIA FORMENTI 

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