EPITACIO PESSOA/ESTADÃO
EPITACIO PESSOA/ESTADÃO

José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

23 Março 2017 | 03h00
Atualizado 24 Março 2017 | 08h18

SOROCABA - “Há dois anos, fui fechado na Avenida Barão de Tatuí (Sorocaba) e entrei num poste. Eles chegaram em 3 minutos. A rapidez do Samu me salvou.” O relato do leiturista Pablo Gregori Ferrari, de 37 anos, mostra a relevância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), responsável pelo atendimento de 81,2% dos casos de urgência em 391 municípios do Estado de São Paulo. Mas, agora, queda na arrecadação faz com que prefeituras deixem ambulâncias paradas e até abandonem o serviço.

Em 2016, o Samu atendeu 11 mil chamadas, resultando em 7,3 mil atendimentos efetivos. Segundo estimativas de gestores do serviço em 5 das 17 regionais paulistas, um de cada cinco municípios está inadimplente ou com ambulâncias paradas por falta de manutenção. As prefeituras reclamam do alto custo e cobram mais participação de Estado e do governo federal.

No dia 7, a prefeitura de Pindamonhangaba, por exemplo, saiu do consórcio que gerenciava o Samu na região do Vale do Paraíba, deixando para trás uma dívida de R$ 2 milhões. A base operacional foi desativada e os 30 funcionários, desligados. “Estamos realinhando os custos para manter os serviços sem prejuízo no atendimento”, disse o prefeito de Taubaté, Ortiz Junior (PSDB), presidente do consórcio.

Já os 13 municípios que integram o consórcio de Ourinhos chegaram a discutir o fechamento do Samu no ano passado, em razão da inadimplência, conforme o prefeito Lucas Pocay (PSD). “Várias prefeituras, até Ourinhos, estavam com parcelas do rateio em atraso. Tivemos de fazer uma readequação, com a troca da coordenação regional, e hoje a situação continua difícil, mas em dia.” 

Motolâncias. Em Campinas, as nove motolâncias - veículos de socorro mais rápidos que levam os socorristas até a ocorrência - estão paradas desde 2014. Também estão fora de uso 11 das 24 ambulâncias por falta de condições para rodar. A prefeitura informou que essas viaturas fazem parte de uma "reserva estratégica" para entrar em ação quando as outras requerem manutenção e que aguarda a renovação da frota pelo Ministério da Saúde. Sobre as "motolâncias", foi feito concurso para condutores e os aprovados serão chamados oportunamente.

Na região de Sorocaba, de 12 municípios previstos, 4 desistiram de integrar o Samu. De acordo com a prefeitura de Sorocaba, gestora do sistema, entre os oito que ficaram alguns já apontaram que estão tendo dificuldades para manter o serviço, mesmo não participando do rateio das despesas da central de regulação. “Há um déficit de cinco médicos, 1 enfermeiro e 16 telefonistas para completar a escala nas funções, o que demanda horas extras e ajustes constantes”, informou em nota.

Em Sumaré, das cinco ambulâncias, duas estão em manutenção. A prefeitura informou que a nova gestão, ao assumir em janeiro, encontrou os veículos abandonados na garagem e conseguiu uma parceria para consertar os veículos. A reportagem não conseguiu contato com a administração anterior.

Em Santos, a prefeitura alugou oito ambulâncias para substituir veículos que estão parados para manutenção. Apenas quatro viaturas da frota própria estão operando. “A prefeitura segue pleiteando o envio de novas viaturas pelo Ministério da Saúde, mas, desde o ano passado, registrou três recusas”, informou em nota. 

Em Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo, a prefeitura decretou calamidade financeira e o Samu foi afetado. Das cinco ambulâncias, duas estão paradas. Para piorar, uma auditoria do Ministério da Saúde constatou instalações inadequadas e precárias condições de trabalho. O repasse mensal de R$ 120 mil foi suspenso.

Sobre a cobrança dos municípios, o Estado alegou investimento desde 1989 no Grau. “Não foi o governo do Estado que não aderiu o Samu. Foi o governo federal que não aderiu ao que já existia.”

Para especialista, sistema 192 precisa ser repactuado

Para o médico Antônio Onimaru, ex-consultor técnico do Ministério da Saúde na Coordenação Geral de Urgência e Emergência e atual coordenador do Samu regional de Ourinhos, desde que foi criado, há 13 anos, o Samu se tornou a principal “porta da entrada” do cidadão no sistema de saúde. “Não consigo imaginar o País sem esse serviço. Com todas as falhas, ainda é um sistema que salva vidas.” 

Ele vê, no entanto, necessidade de “repactuar” o serviço 192. Como os equipamentos são caros e a mão de obra, especializada, o Samu foi concebido para atuar regionalmente, com os municípios de maior porte apoiando os menores. Os custos são per capita e rateados conforme a população atendida. “O problema é que um grande número de municípios está inadimplente e isso causa um desequilíbrio no conjunto”, disse Onimaru. “Há necessidade urgente de nova discussão com o Ministério da Saúde e gestores no Estado. Se o Samu deixar de existir, a população terá sérios prejuízos.” 

Encontrou algum erro? Entre em contato

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

23 Março 2017 | 03h00

SOROCABA - Na manhã desta quarta-feira, 22, a idosa Maria Terezinha Martins, de 80 anos, passou mal no prédio onde mora, em um condomínio da Vila Angélica, zona norte de Sorocaba. “A pressão caiu, ela ficou mole, não falava coisa com coisa e, como já teve um AVC (acidente vascular cerebral), tive medo dela morrer”, contou a neta Ana Luísa Caçador, de 13 anos. O pai dela e genro da paciente, o técnico em radiologia Eduardo Henrique Caçador, chamou o Samu. “Não deu dez minutos e a ambulância estava aqui na frente.”

Segundo o genro, a idosa já havia sido atendida pelo Samu quando sofreu o AVC. “Chamou o Samu, não tem erro, é solução rápida.” Ele mesmo foi atendido em outra ocasião com pneumonia grave. “Se o socorro não chegasse rápido, teria morrido.”

O zelador Dionísio Foltran, de 68 anos, conta que chamou o serviço quando um amigo começou a ter um enfarte. “Conseguimos, eu e o filho dele, mantê-lo vivo até a chegada da ambulância, que veio em 15 minutos. Fizemos até respiração boca a boca. Ele foi estabilizado e levado até o hospital. Morreu, mas a família teve tempo de se despedir.”

Urgência. O padeiro Divaldo Luiz da Silva, de 39 anos, morador do bairro Ipatinga, em Sorocaba, também acredita que o Samu salvou a vida da filha, Mirela, de 1 ano e meio. “Em janeiro, o peito da bebê trancou e ela não conseguia respirar, estava ficando roxa e entrando em convulsão. A ambulância chegou muito rápido, graças a Deus, e ela foi bem cuidada.” A criança foi atendida por uma unidade de suporte avançado, uma UTI móvel, equipada como uma sala de emergência. Enquanto o veículo se deslocava para o hospital, o médico adotava procedimentos para desbloquear a respiração e monitorar o coração. 

Já a caseira Ana Paula de Souza Pedroso, de 37 anos, de Salto de Pirapora, acredita que quase perdeu o filho, Wellington, de 16, porque a cidade não tem o Samu. O rapaz sofreu um acidente de moto no dia 28 de novembro e teve fratura exposta no fêmur. “O resgate chegou em 20 minutos, mas ele foi levado para o hospital da cidade, que não tinha estrutura para atender. A transferência para o Hospital Regional de Sorocaba levou mais de três horas e ele quase morreu. Se fosse o Samu, seria levado direto”, disse. Souza ainda se recupera do acidente.

A prefeitura de Salto de Pirapora informou que não está no Samu por causa do custo, mas estuda a adesão. “Neste momento, o município não dispõe de recursos financeiros para a manutenção desse serviço”, disse, em nota. Sobre o caso do rapaz acidentado, informou que a rede municipal adotou todos os protocolos de atendimento e fez o encaminhamento para Sorocaba.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Luiz Fernando Toledo e José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

23 Março 2017 | 03h00

A gestão Geraldo Alckmin (PSDB) ainda não iniciou a integração na capital paulista entre os canais de atendimento a emergências do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), municipal, e do Grupo de Resgate e Atendimento a Urgências (Grau), estadual. Seis meses após decisão judicial obrigar o Estado a começar a “interação entre os serviços”, ainda não há data definida para a mudança. A decisão, dada em setembro, dava prazo de 30 dias para iniciar a integração.

Isso foi pedido após o Ministério Público apontar que, sem nunca ter recebido repasse estadual, o Samu paulistano deixava de atender 41% das ocorrências recebidas. Portaria do Ministério da Saúde indica que o financiamento do serviço deve ser compartilhado por União (50%); Estado (25%); e município (25%). Mas o governo diz que não faz o repasse por oferecer serviço semelhante. A partir disso, foi exigida a fusão.

O diretor do Grau Jorge Ribera criticou o prazo dado para a fusão. “É como falar que tenho que construir um prédio em 30 dias. Isso não existe.” A proposta inicial do governo é unificar as centrais de atendimento telefônico 192 e 193 e o processo de despacho (envio das viaturas) em um só local, que, segundo o dirigente, deve ser o Centro de Operações da Polícia Militar (Copom). . Desde janeiro, grupos de trabalho discutem o tema. A proposta é que Samu e Grau sigam com sistemas próprios, mas com diálogo maior para evitar duas viaturas em uma ocorrência. 

"Há uma série de diferenças, ainda que sutis, que devem ser identificadas para não começarmos (a integração) como uma coisa extremamente cara e não resolutiva", diz o dirigente. Ele destaca que há grupos de trabalho que, desde janeiro, discutem como organizar as diferenças de produção entre os dois serviços e também as modificações operacionais com os sistemas de tecnologia e telefonia. Até agora, no entanto, não ficou decidido nem quantos operadores deverão atuar no novo sistema integrado.

"O cidadão liga hoje para o 192, 193, 190 e, no fim, chega num mesmo local o carro da polícia, do resgate e do Samu. Enquanto isso outro há outro cidadão chamando e, com isto, o tempo de chegada aumenta. Quando unificarmos a central, diminui essa duplicidade", explica. A expectativa é de uma redução de até 30% da demanda com a mudança.

Ribera ainda justifica a demora dizendo que faltou interesse da gestão Fernando Haddad (PT). "Não senti uma oposição por ser de outro partido, mas ninguém faz um 'upgrade' na casa quando está saindo dela. Não houve má vontade, é questão do momento em que essa mudança foi suscitada", Procurada, a equipe petista disse que não pôs empecilho para discutir e aguardou retorno de agendas com o Estado. Procurada, a gestão João Doria (PSDB) diz ter posicionamento igual ao do governo do Estado. Sobre Sorocaba, o governo estadual afirma ter iniciado o processo de integração. No momento, diz, estão sendo definidos novos fluxos de regulação.

Justiça. O governo do Estado ainda não respondeu oficialmente ao Ministério Público Estadual que ações tomou para cumprimento da decisão judicial que pedia a integração. A promotora da Saúde Pública Dora Martin Strilicherk, responsável pela ação, disse ao Estado que o atendimento deficitário "em nada foi alterado". "A promotoria aguarda a manifestação do juízo e espera que a alardeada cooperação entre Estado e município na saúde mostre efetividade no caso Samu", disse.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.