MARCOS DE PAULA/ESTADÃO
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Dados desatualizados em cadastro prejudicam quem precisa de doação de medula óssea

Terceiro maior banco de medula óssea do mundo, o Redome reúne informações de 3,6 milhões de pessoas, mas entre 30% e 35% não atualizaram seus endereços e contatos

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

08 Abril 2015 | 16h18

RIO - O aposentado Cleber de Almeida Marin, de 66 anos, descobriu há seis meses que tinha leucemia mieloide aguda. O transplante de medula óssea é a única chance de cura. Conseguiu o que parecia impossível: duas pessoas cadastradas no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome) são 100% compatíveis com Marin. Só que elas não foram localizadas. 

Terceiro maior banco de medula óssea do mundo - atrás apenas do americano e alemão -, o Redome reúne informações de 3,6 milhões de pessoas. Mas entre 30% e 35% não atualizaram seus endereços e contatos. "Quando soubemos que havia doadores totalmente compatíveis foi como se tivéssemos ganhado na loteria. Só que você precisa ganhar na loteria duas vezes: ter um doador compatível cadastrado e ele ser localizado", diz a jornalista Cíntia Marin, de 41 anos, filha de Cleber. 

Para ser doador de medula óssea, o voluntário retira uma pequena quantidade de sangue. As características genéticas são analisadas e ficam guardadas num banco de dados. Quando um paciente precisa de doação, a equipe do Instituto Nacional do Câncer (Inca) entra em contato com o doador - seja por telefone, e-mail, telegrama, e até mesmo as redes sociais. O Redome foi criado em 1993, e muitas pessoas mudaram endereço desde então. 

"Em 2003, o registro brasileiro tinha 35 mil cadastrados. Tivemos um crescimento absurdo. Nossos doadores são jovens, têm entre 18 e 40 anos. A medula pode ser usada até completarem 60 anos. Eles têm de entender que podem ser chamados para doar nos próximos 20 anos", afirma Luis Fernando Bouzas, Coordenador do Redome. Ele ressalta que nos Estados Unidos o índice de cadastro desatualizado chega a 60%. 

Campanha nacional. Para tentar reduzir o número de voluntários que não são localizados, a família de Marin criou uma campanha nacional para que os doadores atualizem seus cadastros. "As pessoas decidem em algum momento doar a medula porque viram um filme, novela ou viveram um caso próximo. Elas têm um impulso solidário e esquecem. Mudam de cidade, endereço, telefone. Atualizar o cadastro é muito fácil", diz Cíntia. 

A família imprimiu adesivos, que foram espalhados por laboratórios, clínicas e distribuídos entre amigos. A mensagem é direta: "Doador de medula óssea, atualize seus dados no www1.inca.gov.br/doador. Salve uma vida!". 

Marin defende que o cadastro seja atualizado de forma automática. "O ideal é que seja feito um convênio com algum órgão como a Receita Federal", sugere. "Há bastante gente na minha situação, aguardando doador. Para o meu caso o transplante de medula óssea representa a cura. Eu não tenho outra alternativa." 

Bouzas explica que já tentou atrelar a atualização do cadastro do Redome aos dados do CPF e do título de eleitor. Não conseguiu até agora. "Esbarramos na burocracia". Segundo ele, medidas simples adotadas nos últimos anos facilitaram a localização de voluntários. O call center, por exemplo, deixou de funcionar no horário comercial. As equipes trabalham de manhã até a noite. 

"Estamos criando ainda um projeto de fidelização do doador. Vamos fazer um portal, onde ele poderá obter informa ção sobre o transplante e também atualizar o cadastro. Tem muita gente que ainda acha que ao retirar aquela amostra de sangue para fazer o cadastro já fez a doação de medula. Quanto mais informação melhor para poder incentivar a manutenção do registro atual", afirma Bouzas. 

Depois que os dois possíveis doadores brasileiros de Marin não foram localizados, o Redome começou pesquisa nos bancos internacionais. Há uma pessoa com características genéticas 90% compatíveis com o aposentado no banco americano, que aceitou fazer a doação. Ela fará agora exames complementares para confirmar o transplante. "Os doadores brasileiros eram os ideais. Mas estamos apostando todas as nossas fichas nesse doador internacional", disse Cíntia. 

Serviço:

Para se recadastrar como doador de medula óssea

Para se cadastrar como doador voluntário de medula óssea, procure o Hemocentro mais próximo

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