James Gathany/CDC/AP
James Gathany/CDC/AP

Dengue e zika

Indivíduos com anticorpos contra o vírus da dengue e seus parentes sofrem uma infecção mais intensa e rápida quando expostos ao zika

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

15 Abril 2017 | 03h00

Em 2015, quando surgiram os primeiros casos de microcefalia na Região Nordeste, os médicos levaram um susto. Eram muitos registros, um número muito maior que o que vinha sendo observado nas últimas décadas. Logo se iniciou a procura pela causa. Não demorou muito para surgir o primeiro suspeito, o vírus zika, que, originário da África, havia chegado ao Brasil e estava se espalhando pelo Nordeste. Mas havia um problema. Na maioria dos países onde as epidemias haviam sido detectadas os casos de microcefalia eram poucos ou inexistentes. O zika era considerado um vírus pouco perigoso. A maioria dos casos era assintomática e os poucos sintomáticos geralmente não deixavam sequelas. No início, muitos questionaram se o zika seria mesmo a causa da epidemia de microcefalia que assolava a região. Eu fui um desses descrentes iniciais.

Com o tempo, mais dados foram coletados e, por fim, os cientistas demonstraram que o culpado era mesmo o zika. Mas o problema não desapareceu. À medida que a epidemia se espalhou, o zika parecia se comportar de maneira diversa em diferentes populações. Em algumas, os casos de alterações do sistema nervoso eram raros; em outras, o vírus parecia agressivo, deixando sequelas. Claramente outro fator estava modulando a agressividade do vírus. Agora, esse fator parece ter sido descoberto.

O vírus da zika pertence à mesma família de outros conhecidos, como o da dengue e o da febre do Nilo Ocidental (FNO). Por causa da semelhança, pessoas que tiveram essas doenças têm anticorpos que se ligam ao vírus zika mesmo nunca o tendo encontrado. É a imunidade cruzada, que normalmente garante maior resistência à infecção ao vírus. Ou seja, se espera que essas pessoas sejam parcialmente resistentes ao zika.

Um trabalho recém-publicado, porém, demonstrou que, ao menos em camundongos, o fenômeno é o inverso. Indivíduos com anticorpos contra o vírus da dengue e seus parentes, dependendo da quantidade de anticorpo, sofrem uma infecção mais intensa e rápida quando expostos ao zika.

Isso foi demonstrado em experimentos feitos com soro de humanos. Os cientistas obtiveram soros de cerca de 140 pessoas que possuíam anticorpos contra dengue, 140 com anticorpos contra o vírus da FNO e 140 sem esses anticorpos. Nos três grupos, as pessoas nunca haviam sido infectadas pelo zika. 

Primeiro, os cientistas demonstraram que nos dois primeiros grupos de soros existem anticorpos que se ligam às proteínas que recobrem o vírus zika e que esses anticorpos não existem nos soros do terceiro grupo. Num segundo experimento, foi adicionado, separadamente, cada um dos três tipos de soro a células humanas cultivadas in vitro. Após adicionarem o soro à cultura de célula, colocaram vírus zika. E aí passaram a medir sua capacidade de infectar essas células. Eles observaram que os soros de pessoas com anticorpos contra dengue e contra FNO facilitavam a infecção das células pelo zika. E que isso não ocorria com os soros sem anticorpos. Descobriram também como isso ocorre. Parte dos anticorpos contra dengue e FNO adere às células humanas através de um receptor, enquanto a outra parte adere ao vírus zika, trazendo-o para perto e facilitando a infecção. Também descobriram que isso depende da quantidade de anticorpo presente: se ela é baixa, a infecção é facilitada; se ela é alta, a infecção é dificultada.

O experimento foi feito em camundongos, que receberam um dos três tipos de soro e logo depois com o vírus zika. Os resultados foram semelhantes aos obtidos com células humanas em cultura. Os animais que receberam anticorpos contra dengue sofriam uma infecção muito mais forte pelo zika. Os que recebiam anticorpos contra FNO sofriam uma infecção relativamente mais branda e os que recebiam soros que não continham esses anticorpos eram infectados pelo zika, mas de maneira mais leve e sem muitos efeitos colaterais.

Os resultados precisam ser confirmados em seres humanos, mas sugerem que pessoas já expostas à dengue e à FNO podem sofrer infecções de zika mais fortes e rápidas. Se isso for confirmado, é uma possível explicação para a heterogeneidade de lesões causadas pelo vírus. No Brasil, onde zika e dengue andam juntas, essa possibilidade é preocupante.

* MAIS INFORMAÇÕES: ENHACEMENT OF ZIKA VÍRUS PATHOGENESIS BY PREEXISTING ANTIFLAVIVIRUS IMMUNITY. SCIENCE VOL. 356 PAG.175 2017

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

Mais conteúdo sobre:
África Região Nordeste Brasil BIÓLOGO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.