JF DIORIO /ESTAD?O
JF DIORIO /ESTAD?O

Dieta de adolescentes é de 'alto risco', diz estudo

Segundo pesquisa inédita feita pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em parceria com o Ministério da Saúde, alimentação dos jovens brasileiros pode causar problemas cardiovasculares, renais e obesidade

Lígia Formenti, O Estado de S.Paulo

07 Julho 2016 | 13h41

BRASÍLIA - Uma pesquisa inédita feita pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o Ministério da Saúde, mostra que adolescentes seguem uma dieta de alto risco para problemas cardiovasculares, renais e obesidade. A lista de problemas é extensa: refrigerante é o sexto alimento mais consumido, só metade toma mais de 5 copos de água por dia, 80% consomem sódio em excesso e todos ingerem menos cálcio e vitamina E do que o adequado. O trabalho tem por base um inquérito com estudantes de 12 a 17 anos, feito em 1.247 escolas espalhadas pelo País.

“Vivemos em uma transição do padrão africano, onde a fome era prevalente, para o padrão americano, onde a obesidade predomina”, afirmou a diretora do Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos não Transmissíveis e Promoção à Saúde, Fátima Marinho. A epidemiologista considera que o fenômeno identificado agora entre adolescentes já ocorre há alguns anos na população adulta. “Nossa tarefa é tentar reverter esse padrão, sobretudo com população mais jovem.” 

O conjunto de hábitos retratado na pesquisa preocupa. Mais da metade faz refeições sempre ou quase sempre na frente da TV. Quando não é o prato de comida, é o salgadinho. Dos entrevistados, 40% disseram que comem petiscos enquanto estão com o aparelho ligado e 73,5% passam duas horas ou mais vendo TV ou no computador. “Trabalhos mostram que, quando a pessoa faz refeições com companhia, há uma tendência maior de se prestar atenção no que se está comendo, reduzindo excessos”, afirmou a coordenadora de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde, Michele Lessa.

Arroz e feijão. A boa notícia está na permanência do hábito brasileiro de colocar no prato arroz e feijão. São os itens de alimentação mais consumidos pelos jovens, com 81,75% e 67,95%, respectivamente. No entanto, doces e refrigerantes, com 44,97% e 39,33%, por sua vez, estão mais bem colocados do que frutas e hortaliças (33,97%). No Nordeste, o consumo de frutas e hortaliças é tão baixo que não figura entre os 20 alimentos mais usados.

O padrão entre adultos é ainda mais desanimador. Estudo feito por telefone com moradores com mais de 18 anos das capitais do País mostra que 19% do brasileiros têm o hábito de consumir refrigerantes e sucos artificiais e 20% consomem doces 5 vezes por semana ou mais. O hábito reflete diretamente na obesidade: 18,6% são obesos - em 2010, eram 15%.

A estudante Morgana Miranda, de 18 anos, por exemplo, diz que toma refrigerante todos os dias e o hábito a acompanhou durante toda a adolescência. “Até penso em tomar suco, mas vou comer uma batata frita e não combina.” Já na casa da estudante Tifany Ito, de 17 anos, sempre tem suco de caixa, diariamente. “Fazer suco natural dá muito trabalho.”

Endocrinologista do Centro de Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Tarissa Petry diz que, por praticidade, brasileiros estão deixando de consumir alimentos naturais, mas que isso pode trazer sérias consequências para a saúde. “Estamos diagnosticando a obesidade cada vez mais cedo. Esses jovens vão ter diabete, hipertensão, enfarte e AVC mais cedo também.”

Propaganda. O ministro da Saúde, Ricardo Barros, destacou que a propaganda de alimentos ricos em sal, açúcar e gordura e com excesso de álcool poderia ser “aprimorada”, sem dizer, no entanto, o que poderia ser feito. Mas assinou uma portaria que proíbe, a partir de hoje, a venda, promoção, publicidade ou propaganda de alimentos industrializados, ultraprocessados, com excesso de açúcar, gordura e sódio dentro das unidades do ministério. O mesmo vale para eventos patrocinados e ele espera que a medida seja replicada por outros órgãos de governo. / COLABOROU PAULA FELIX

DICAS PARA ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL

1) Descascar mais, desembalar menos.

2) Faça compras em locais onde há oferta de alimentos in natura.

3) Procure comer em companhia. Quem faz isso, presta mais atenção no que consome, evitando excessos.

4) Não coma na frente da TV, usando o celular ou jogando. Esse hábito aumenta o risco de comer sem necessidade.

5) Quando comer fora de casa, procure restaurantes nos quais você mesmo monta o prato. Comece pela salada.

6) Seja crítico. Nem tudo o que a indústria diz ser saudável faz de fato bem à saúde. 

7) Sucos artificiais, por exemplo, têm baixo teor de nutrientes. Achocolatados, alto teor de sódio.

8) Se possível, cozinhe e ensine as crianças a cozinhar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.