H.F. Botfield et al., Science Translational Medicine (2017)
H.F. Botfield et al., Science Translational Medicine (2017)

Droga usada para diabete mostra eficácia contra alta pressão no cérebro

Estudo liderado por cientistas britânicos revela que o agonista de GLP-1, um medicamento amplamente usado por diabéticos, reduz em 44% pressão intracraniana que produz fortes dores de cabeça

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

23 Agosto 2017 | 18h00

Uma droga amplamente usada contra a diabete e a obesidade foi eficaz para reduzir a pressão intracranaina, de acordo com um novo estudo realizado em camundongos e publicado hoje na reivsta científica Science Translational Medicine

A pressão aumentada no cérebro ocorre em casos de trauma cerebral, acidente vascular cerebral (AVC), hidrocefalia. Ela é também a principal característica da hipertensão idiopática intracraniana (HII), um problema não raro - um caso ocorre anualmente a cada 100 mil habitantes - que causa dores de cabeça e forte pressão nos nervos em torno dos olhos - além de cegueira em 25% dos casos não tradados.

Os cientistas utilizaram as chamadas drogas agonistas de GLP-1, uma substância produzida pelo próprio organismo e que é a base para drogas utilizadas normalmente no controle da glicemia em pacientes de diabete tipo 2.

De acordo com os autores do estudo, da Universidade de Birmingham (Reino Unido), a aprovação da droga para o uso contra pressão intracraniana poderia ser bastante rápida, porque ela já passou pelos testes clínicos para o uso por pacientes de diabete.

"A descoberta pode ser rapidamente transformada em uma nova estratégia para o tratamento de HII, já que os agonistas de GLP-1 são drogas seguras e amplamente usadas para tratemento da diabete e obesidade", disse Alexandra Sinclair, a autora principal do estudo.

"Essa droga também tem potencial para ser um divisor de águas no tratamento de outros problemas que envolvem alta pressão no cérebro, incluindo AVC, hidrocefalia e lesão traumática cerebral", acrescentou Alexandra.

Os cientistas estudaram ao longo de três anos se as drogas agonistas de GLP-1 poderiam reduzir a pressão intracraniana em ratos preparados para sofrerem de pressão aumentada no cérebro.

De acordo com eles, em geral a alta pressão no cérebro é causada por uma alteração na densidade do fluido cérebro-espinhal. Quando a produção do fluido pelo organismo é maior que a capacidade do cérebro para drená-lo, a pressão aumenta dentro do crânio. O estudo mostrou que o medicamento ajudou a equilibrar a produção e a drenagem do líquido cérebro-espinhal no cérebro.

"Mostramos que um agonista de GLP-1 reduziu consideravelmete a pressão no cérebro, em 44%, de forma rápida e dramática. Esses efeitos foram alcançados em apenas 10 minutos após a injeção da droga. É a maior redução que já vimos desse tipo de problema, entre todos os métodos que já foram testados", afirmou Alexandra.

De acordo com a cientista, há muito tempo os cientistas procuram alternativas para o tratamento da pressão intracraniana. "Os tratamentos para redução da pressão cerebral são escassos e precisamos desesperadamente de novas terapias", declarou.

"O principal tratamento ´para HII atualmente é a acetazolamida, mas ela não funciona muito bem para a maior parte dos pacientes. Os efeitos colaterais são tão intensos que nossos testes anteriores mostraram que 48% dos pacientes abandonam o tratamento", disse Alexandra.

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