JOSE PATRICIO | ESTADAO CONTEUDO
JOSE PATRICIO | ESTADAO CONTEUDO

‘É uma volta a um modo mais antigo de viver’

Arquiteta e estudiosa, Laura Fitch defender o estilo de vida em uma cohousing, mais social mas com privacidade

Entrevista com

Laura Fitch, especialista em cohousing

O Estado de S.Paulo

14 Novembro 2017 | 10h29

Ao viajar para Dinamarca, em 1994, a arquiteta Laura Fitch se apaixonou pelo modelo de cohousing. A vida em uma comunidade que mantinha a individualidade ao mesmo tempo que estimulava o convívio social se transformou em um modelo de vida. Em entrevista ao Estado, a hoje ativista ressaltou que o modelo é mais uma volta a necessidade básica humana de contato e não uma invenção moderna.

Você descreveria o cohousing como um novo jeito de viver em sociedade?

Na verdade eu diria que é um retorno a um modo antigo de viver. Quando éramos jovens, ou quando nossos pais eram jovens era plenamente comum brincar na rua e viver fora de casa e ver as atividades das pessoas na rua. O que aconteceu é que as famílias ficaram menores e se mudaram para longe de suas famílias e as coisas ficaram mais urbanas. Mas a necessidade básica humana por contato ainda está lá. Estamos nos lembrando disso

Mas não é um desafio implementar esse modelo em uma grande cidade como São Paulo ou Nova York?

Acho, na verdade, que é bastante adaptável. Você já tem apartamentos, condomínios. Acho que apenas o térreo tem que se tornar mais acessível, mais área comum. Meus pais vivem em Boston, é uma grande cidade e eles têm uma área térrea que é feita para as pessoas chegarem e entrarem diretamente no elevador. Deveria ser feita para as pessoas chegarem, sentarem, conviverem.

É uma mudança na cultura de quem vive nas grandes cidades também?

Sim, você precisa se organizar em torno disso. Se nós fizermos isso iremos mudar um pouquinho. Criando uma área comum no térreo, uma cozinha comunitária uma sala de jantar, é outro jeito de fazer as coisas.

E os desafios de estabelecer um grupo de cohousing em um país de terceiro mundo como o Brasil?

O grande desafio, sempre, é ter um grupo que pague o custo inicial, achar uma terra para construir a cohousing. Mas eu não acho que a cultura das pessoas é diferente. Elas querem uma comunidade, querem se conectar com outras pessoas. Talvez elas não saibam que querem uma comunidade e isso é algo interessante. Então nós temos que educar as pessoas sobre isso.

Os idosos são os que mais se beneficiam em uma cohousing?

Eu tenho um vizinho cuja esposa tem demência. As vezes ele tem que optar por uma cuidadora. Mas agora ele tem suporte para ajudar com ela. Alguns vizinhos se esforçam para ajudar e perguntar como ela está indo. Muitas mulheres solteiras também se beneficiam, já que os homens costumam morrer mais cedo. Então as viúvas idosas, que muitas vezes se sentem sozinhas têm alguém para chamar elas para um filme. E é mais fácil porque quando vemos ela na frente do espaço comum já sabemos: “Ah, você quer ver um filme”. Você não precisa telefonar.

As cohousings, além de prover uma integração maior com as pessoas, também são mais ecologicamente sustentáveis?

Sim, porque os recusos são divididos e não precisamos de tantos recursos quanto usamos hoje.Na questão de espaço também porque você tem casas menores e sobra mais espaço para plantas, agricultura doméstica. Em uma situação urbana você pode decidir colocar um jardim no terraço e são as pessoas que decidem, não o dono do prédio.

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