Ritchie B. Tongo/EPA/EFE
Ritchie B. Tongo/EPA/EFE

Ebola é a emergência 'mais severa dos tempos modernos', diz OMS

Entidade reconhece que não está perto de declarar o controle da epidemia, que já matou, segundo números oficiais, mais de 4 mil

Jamil Chade, Correspondente de O Estado de S. Paulo

13 Outubro 2014 | 07h17

Atualizado às 8h15

GENEBRA - O surto do Ebola é a "emergência de saúde mais severa e aguda visto nos tempos modernos" e o vírus apenas se transformou em uma ameaça mundial por conta da pobreza. O alerta é da Organização Mundial da Saúde (OMS), que reconhece que o mundo "não está preparado" para lidar com emergências sanitárias internacionais e adverte que a proliferação de casos é resultado das desigualdades sociais no planeta. 

Oficialmente, a doença já matou cerca de 4 mil pessoas no oeste da África. Mas a própria ONU admite que os números reais podem ser duas vezes maiores, já que muitos sequer se apresentam aos centros de saúde. 

"O mundo não está preparado para responder à uma emergência sanitária pública que seja sustentável, ameaçadora e severa", indicou Margaret Chan, diretora da OMS.

"Em minha longa carreira, eu nunca vi uma epidemia que gerasse tanto terror. Nunca vi um evento sanitário que ameaçasse tanto a sobrevivência de sociedades e governos em países já pobres", declarou Chan, que aponta que o número de casos continua a aumentar de forma "exponencial". "Eu nunca vi uma doença contribuir de forma tão forte para o fracasso potencial de um estado." 

Para ela, porém, a proliferação da doença é resultado da desigualdade social. "Estamos fazendo esse alerta há décadas. Mas ninguém nos escuta", atacou. "O surto mostra os perigos das desigualdades sociais e econômicas cada vez maiores no mundo. Os mais ricos têm o melhor atendimento. Os pobres são abandonados à morte", disse. 

Chan deixou claro que essa desigualdade, hoje, é o que coloca o mundo sob ameaça do Ebola. "Quando um vírus mortal atinge os destituídos e sai de controle, o mundo inteiro é colocado sob risco", afirmou.

Segundo ela, o resultado do abandono do setor de saúde é que uma doença pode "levar um país a ficar de joelhos".  "Em termos muito simples, o surto mostra como uma doença mortal no mundo pode explorar as fraquezas de uma infraestrutura de saúde, seja por causa da falta de médicos ou locais de isolamento pelos países da África", indicou Chan.

"Um sistema de saúde que não funciona significa que a resistência de uma população é zero", alertou. "Não há como construir um sistema durante a crise. Eles entram em colapso", insistiu.

A OMS ainda atacou a falta de financiamento do mundo rico para remédios que possam curar problemas do mundo pobre. 

"O Ebola surgiu há 40 anos. Mas por que os médicos ainda não têm nada para tratar dos pacientes?", questionou. "Isso acontece por que, historicamente, a doença tem se limitado às nações mais pobres da África", acusou. 

"Os incentivos para pesquisa e desenvolvimento são virtualmente inexistentes", disse. "Uma indústria que só pensa em lucros não investe em produtos para mercados que não podem pagar por eles." 

Colapso. A OMS pediu que governos não deixem de dar atenção às demais doenças, sob o risco de ver casos de vírus que haviam desaparecidos reflorescer diante da falta de investimentos.

Na África, a OMS já alertou que registrou uma alta no número de mortes por doenças como malária, tuberculose e aids desde a eclosão do surto do Ebola.  "Sabemos que já existe um maior número de mortos de outras doenças", admitiu Chan. 

Em setembro, a ONU fez um apelo aos líderes dos países mais afetados que criassem centros especializados em Ebola para atender os pacientes, justamente para não afetar o sistema de saúde já fragilizado.

Nesta segunda-feira, 13, os médicos e enfermeiras da Libéria entraram em greve, exigindo do governo maiores salários diante do risco que estão correndo ao tratar diariamente de dezenas de casos de Ebola, sem proteção adequada. 

Medo. Para Chan, porém, o impacto econômico pode ser reduzido se as populações forem informadas sobre o vírus, evitando "medidas irracionais".  

Citando dados do Banco Mundial, Chan apontou que 90% do custo de qualquer epidemia "vem de esforços irracionais e desorganizados por parte da população para evitar a infecção". 

"A OMS está ciente de que o medo do vírus tem se espalhado pelo mundo muito mais rápido que o próprio vírus", indicou. "Estamos vendo agora como esse vírus pode afetar economias e sociedades em todo o mundo."

Para Chan, educar as populações sobre os riscos e comportamentos é "uma estratégia de defesa muito boa" e ajudaria governos a evitar o colapsos de suas economias. 

Outro esforço da ONU tem sido o de convencer empresas aéreas e de transporte marítimo a não isolar os países afetados, sob o risco de ver essas economias entrarem em colapso. 

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